“As modas dos vinhos vão e vêm, não é?”, resume o crítico de vinhos João Paulo Martins a meio de uma conversa com a DDD sobre tendências recentes que contrastam com algumas tradições mais antigas. E não será o reinventar de tradições, no fundo, uma tendência em si?

Se a tradição portuguesa sempre privilegiou o vinho de lote, isto é, a arte de combinar castas diferentes para que o todo supere a soma das partes, o presente parece trazer uma nova vontade de conhecer melhor a matéria‑prima. “Atualmente as pessoas dão mais importância aos nomes das castas do que davam antigamente. Ninguém sabia os nomes. O vinho era do Alentejo ou do Dão”, lembra o jornalista, sublinhando que a tendência dos vinhos monocasta funciona hoje como ferramenta pedagógica e de descoberta de terroirs.

Em paralelo, muda também o próprio perfil do vinho no copo. Após anos de domínio dos tintos encorpados, extraídos e de alto teor de álcool, cresce agora a apetência por propostas mais leves, de cor aberta e taninos menos marcados – sejam brancos tensos e minerais ou tintos ao estilo clarete e palhete, que recuperam velhas tradições sem abdicar do rigor enológico. Atenta a esta tendência, a Adega Mayor lançou, entre outros, o Esquissos Tudo ao Molho, um palhete inspirado nos vinhos de antigamente que combina uvas tintas e brancas numa mesma vinificação.

Outra tendência que parece ter vindo para ficar é a dos vinhos naturais e biológicos. Em contrapartida, o fascínio cego pelas castas francesas parece ser chão que já deu uvas. João Paulo Martins aponta que muitos produtores têm de se adaptar e fazer vinhos que o mercado quer beber. Mas insiste num princípio: o essencial continua a ser a qualidade, e não a “moda”.

Nas páginas seguintes, mergulhamos no universo de seis castas tradicionais portuguesas que vivem hoje um processo de profunda reavaliação. Castas que foram subvalorizadas, ora por produzirem vinhos rústicos, ora por servirem sobretudo para dar cor ou acidez. Hoje, através da aposta em monovarietais, da recuperação de métodos ancestrais (como os vinhos de talha) e de uma nova centralidade do que é genuinamente português, estas uvas históricas ganham uma nova vida.

Vital 

Lisboa

“É uma casta geracional que sempre associei a Lisboa”, considera a consultora, comunicadora e formadora em enoturismo, Madalena Vidigal. “Oiço falar de produtores novos da região, cujos pais e avós nunca gostaram de Vital e que dizem ter umas vinhas que querem recuperar.” Lisboa é uma região de grande diversidade de terroirs, com sub‑regiões mais interiores e outras de forte influência atlântica, o que permite à Vital expressar diferentes perfis: de brancos frescos e tensos a vinhos mais estruturados. “É uma casta característica desta zona. Funciona bem neste clima atlântico, mas é pouco resistente ao oídio e à podridão, por causa da humidade, que na região Oeste é o que há mais”, revela João Paulo Martins. É dessa delicadeza, associada a produções irregulares e de baixo prestígio, que vem algum do desinteresse das gerações anteriores. E deve ser por isso que é nas encostas da serra de Montejunto, um maciço calcário entre o Tejo e o Atlântico, a cerca de 600 metros de altitude, com solos calcários e boa circulação de vento, que esta casta encontrou o seu habitat natural, e hoje está claramente em processo de redescoberta. “É uma casta emblemática da zona de Óbidos e da serra de Montejunto. E tem de continuar assim”, conclui o crítico.

Moreto 

Alentejo

A margem esquerda do Guadiana, na zona da Granja‑Amareleja, é descrita como “ex‑líbris” da viticultura da casta Moreto, onde muitas vinhas se mantêm plantadas nessa técnica ancestral resistente à praga da filoxera a que se dá o nome de pé franco. Trata-se de uma casta intimamente ligada à cultura dos vinhos de talha, vista hoje como património vivo e alvo de preservação em vinhas muito antigas. Mas nem sempre foi assim, como lembra João Paulo Martins: “A Moreto nunca foi uma casta muito valorizada no Alentejo, a não ser para os vinhos de talha, onde de facto sempre se mostrou interessante.” 

É uma casta vigorosa e produtiva, que gera cachos pequenos com bagos de dimensão média e se dá muito bem com a canícula alentejana. Os vinhos têm uma expressão aromática discreta e pouca capacidade de guarda, pelo que tradicionalmente eram usados para “apimentar” lotes com Trincadeira, Aragonez e Tinta Caiada, mais do que em vinhos monovarietais. Mas também isso está a mudar. Madalena Vidigal, consultora, comunicadora e formadora em enoturismo, conta que, embora a casta fosse usada mais em blends de vinho de talha, “agora já se começa a ter mais orgulho nela e a fazerem-se vinhos que colocam a Moreto em primeiro plano”.

Síria

Beira Interior

Temos aqui uma casta muito antiga, com nomes diferentes consoante as regiões de Portugal e dupla personalidade: em climas quentes dá vinhos mais macios, em altitude ganha acidez, frescura e elegância. No Alentejo e em Setúbal chamam‑lhe Roupeiro, no Algarve é conhecida como Crato Branco e na Beira Interior, para dar só mais um exemplo, já que as nomenclaturas não se cingem a estas, responde por Síria. “Ela já foi muito importante no Alentejo. Foi indispensável nos lotes de vinho branco até aos anos 90, mas perdeu terreno para castas internacionais, como a Viognier, e nacionais como a Antão Vaz e o Alvarinho”, recorda João Paulo Martins.

Durante décadas, foi considerada um vinho de “combate”. Nos últimos anos, ganhou protagonismo renovado com perfis mais frescos. A Síria passou a ser sinónimo de brancos de perfil tenso e mineral, com aromas de lima, erva‑príncipe e pedra molhada – efeito da altitude e do clima da região em que é hoje a casta mais plantada, com vinhas entre os 350 e os 750 metros, em solos sobretudo graníticos, clima continental e fortes amplitudes térmicas. “É a casta que melhor representa a Beira Interior”, sintetiza o crítico. Sendo emblemática da região vitivinícola mais alta de Portugal continental, a Síria mantém presença mais a sul, no Alentejo, onde lhe chamam Roupeiro.

Sousão

Minho e região dos Vinhos Verdes

A Sousão é uma casta tintureira típica do Douro e da região dos Vinhos Verdes, onde é conhecida como Vinhão e se bebe tradicionalmente em malgas de cerâmica branca (acompanha bem, na época delas, um prato de lampreia à bordalesa). O vinho é tão escuro que deixa no fundo branco um rasto em forma de anéis roxos. 

João Paulo Martins lembra que a sua grande virtude sempre foi dar muita cor, mas sublinha outro trunfo decisivo: “É uma casta que preserva excecionalmente bem a acidez, qualidade valiosa em zonas quentes e nos lotes de Vinho do Porto.” Nos últimos anos, tem vindo a ser revalorizada em vinhos de mesa mais sérios, em particular no Douro, onde vários monovarietais demonstram o seu potencial para dar origem a tintos intensos, estruturados e frescos.

Essa reinvenção passa também pela expansão bem-sucedida para o Alentejo pela mão de Carlos Rodrigues, enólogo da Adega Mayor, que a define como “prima direita da Alicante Bouschet”, marcada pela opacidade, acidez e taninos firmes. “A uva perde a adstringência rústica sem abdicar do carácter”, afirma a propósito do Adega Mayor Maestro Monocasta Souzão, um vinho que a adega tem já engarrafado, à espera apenas de “roupagem e caixa” para fazer a ponte entre o Alentejo e os Vinhos Verdes – e provar que esta antiga casta ainda tem muito para dar.

Negra Mole 

Algarve

Casta algarvia por excelência, a Negra Mole é também considerada uma das castas portuguesas mais antigas. Nos anos 80, teve uma quebra acentuada de produção que quase a levou à extinção, motivada pelas dificuldades de cultivo e pouca cor dos seus néctares – era uma época dominada por vinhos encorpados, com alta concentração de taninos e muito álcool. Nos últimos anos, vários produtores algarvios têm trabalhado na sua recuperação, empurrados por uma certa tendência de valorização de vinhos de perfil mais leve, que se aplica na perfeição a muitos vinhos monocasta de Negra Mole.

Os tintos, elegantes e leves, ao estilo clarete ou palhete, de cor rubi muito aberto, quase parecem rosés. É uma casta versátil, que tanto faz tintos de maceração curta ou longa, como também vinho branco, rosé e até espumante. “São vinhos bastante interessantes, embora cheguem pouco a Lisboa”, lamenta João Paulo Martins. “Agora, é uma casta completamente um bocadinho fora do baralho, não é?”. A pergunta é de mera retórica e vem de quem sabe quão incomum é uma casta produzir cachos com bagos de três cores: brancos, rosados e tintos. “Do ponto de vista genético, acho que a casta ainda não está suficientemente estudada – mas os vinhos que provei eram interessantes”, remata o crítico.

Baga

Bairrada 

A Baga não é uma casta que tenha sido recuperada – para isso, precisaria de ter estado perdida –, mas está, sem dúvida, em pleno processo de reinvenção. Deixou de ser vista apenas como a casta que produzia tintos ríspidos e taninosos, que exigiam uma ou duas décadas para serenar, para dar origem a vinhos elegantes e leves, de taninos finos, com aromas de amora, cereja-negra, esteva e folhas secas. Também é a casta por trás dos espumantes brancos feitos de uva tinta mais famosos de Portugal, os Blanc de Noirs. “Está na moda”, afirma Madalena Vidigal. “Há um conjunto de produtores, os Baga Friends, que tem feito muito pela sua promoção. Nunca será consensual, mas está a tornar-se, com orgulho, a casta-bandeira da região.”

“Interessante é também a sua adaptabilidade fora da Bairrada”, sublinha Carlos Rodrigues sobre uma uva cultivada até no Algarve. O enólogo da Adega Mayor sabe do que fala: tem a experiência de quem já fez vinhos alentejanos monovarietais a partir da Baga. “É uma casta que fica mais user friendly no Alentejo. Tal como a interpretámos no Adega Mayor Baga 2020, vê-se que consegue dar vinhos cheios de carácter”, considera. “Está muito na moda”.