Dia 1: Arganil, entre capelas e serras
O fim de semana grande arranca em Arganil, vila pacata que vale a pena conhecer em meia dúzia de paragens estratégicas. Começamos pelo centro histórico, pelo mercado municipal (nos raros dias em que abre portas) e pelo Museu Municipal de Arganil, que se divide em dois: museu de arqueologia e museu de etnografia. O primeiro piso dá a conhecer sobretudo a ocupação da região desde a Pré-História e a exploração feita pelo Império Romano, através da exposição de artefactos encontrados ao longo dos anos. No andar de cima, dedicado à etnografia, faz-se igualmente uma viagem no tempo mas a um passado muito mais recente: “Arganil: da Terra às Gentes” dá a conhecer as atividades económicas da vida no campo – da pastorícia à marcenaria, da moagem à cerâmica, mostrando trajes típicos e ferramentas de trabalho de cada época.
A um quilómetro da vila, pela estrada que segue em direção a Coimbra, fica a capela São Pedro, uma edificação maciça e austera do final do século XIII, que capta o olhar de quem passa, tanto pela imponência do edifício quanto pela localização inusitada: está sozinha, à beira da estrada. Para o lado oposto, todos os caminhos vão dar ao Santuário de Nossa Senhora do Mont’Alto. Erguida num monte sobranceiro à vila, a ermida dedicada à sua padroeira fica a 615 metros de altitude e avista-se ao longe de quase todos os pontos de Arganil.
O dia termina na Casa do Rio Alva, mesmo em cima do rio. As janelas rasgadas emolduram a vista, digna de postal, e o som da água a correr embala os hóspedes durante toda a estadia. O mergulho no Alva, que aqui parece um rio privado, é perfeito para terminar o dia – ou para começar um novo.
Dia 2: Côja, sabores e mergulhos
Tranquila e charmosa – assim é a vila de Côja. Começamos com um pequeno-almoço guloso na Pastelaria Pérola de Côja, para provar os doces típicos da vila: as telhas, os biscoitos de mel ou de amêndoa, os farta rapazes ou a afamada broa de batata, nomeada para as 7 Maravilhas Doces de Portugal. Para digerir tanto docinho tão bom, recomenda-se uma volta a pé pelo centro histórico, da igreja matriz à pitoresca zona ribeirinha.
Com bom tempo, há três praias fluviais por perto que se destacam: a do Caneiro de Côja, a da Cascalheira e, do outro lado do rio Alva, a praia fluvial da Ronqueira – todas com águas límpidas, boas sombras e natureza a toda a volta. Depois de alguns mergulhos e passeios, e já de apetite aberto, seguimos para o restaurante Príncipe do Alva. Se a meteorologia permitir, pergunte por uma mesa na esplanada, de onde se vê o rio a correr. A carta é composta por pratos regionais: do bacalhau na broa ao bucho, do arroz de cabidela ao imperdível pernil de cabrito, suculento por dentro e estaladiço por fora.
À tarde, rumamos em direção à Barragem de Fronhas para um mergulho e, se depois sobrar energia, para percorrer os trilhos pedonais da Mata da Margaraça. São 68 hectares de Reserva Biogenética, em plena Serra do Açor, onde mergulhos também não faltam para quem os procurar: basta caminhar até à Fraga da Pena, a cascata mais bonita da região – ou melhor dizendo, conjunto de cascatas, já que o acidente geológico criou uma sequência de quedas de água paradisíaca.
Ao final do dia, camuflamo-nos no InXisto Lodges, casas de madeira e pedra, de estilo minimalista e perfeitamente integradas na paisagem. Aproveite-se a vista para o verde da serra e, ao cair da noite, para o céu estrelado.
Dia 3: Piódão, memória em xisto
A última paragem leva-nos à aldeia mais bonita da região, empoleirada na encosta como se fosse feita de camadas de história: Piódão. Há quem lhe chame presépio de xisto e aldeia postal – assim que a avistamos à chegada, percebemos porquê. Num curto passeio a pé conhecem-se a igreja matriz, as capelas, a fonte dos Algares e o forno comunitário, onde em tempos toda a aldeia cozia o pão do dia. O almoço é no Solar dos Pachecos, com uma chanfana à Piódão que se desfaz no garfo e faz crescer água na boca. No final, não hesite em aceitar a gentil oferta de chiripitis – são licores, de medronho, zimbro, cereja e castanha, que se podem comprar na loja e levar para casa.
Para um mergulho, descemos até à praia fluvial de Piódão ou subimos, em direção a Foz d’Égua. A praia fluvial homónima e a ponte suspensa fazem as maravilhas dos visitantes, com uma vista soberba e a um abraço de verde a toda a volta. O trilho da Eira da Bouça também merece ser percorrido – mais ainda em dias quentes, já que a humidade florestal baixa a temperatura e cria um ambiente calmo e silencioso.
Uns quilómetros acima, pela mesma estrada, fica o Centro Interpretativo das Pinturas Rupestres de Chãs d’Égua, que conta a pré-história da região em poucas salas e muitas imagens. O núcleo inclui painéis informativos, fotografias dos abrigos e réplicas dos motivos geométricos e antropomórficos pintados há milhares de anos. A reserva prévia é obrigatória.
Antes de seguir viagem, despeça-se da região com uma paragem no miradouro de Fonte Carriço para um último vislumbre de Piódão encaixada na Serra do Açor. É um postal digno de se gravar na memória.




