A Cadeira Portuguesa faz parte da paisagem das esplanadas do país há já perto de um século. É tão comum que, sob um olhar menos atento, quase se torna invisível. Um objeto à primeira vista banal, que é, na verdade, um clássico do design nacional cuja história merece ser revisitada.

Surgiu nos anos 30, período em que se começava a consolidar uma cultura de espaço público nas cidades portuguesas, onde cafés, praças e esplanadas se tornavam pontos de encontro e de socialização. 

À imagem do ovo e da galinha, é difícil dizer se foram as esplanadas que deram origem a esta cadeira ou se foi a cadeira que ajudou a popularizar as esplanadas. “Não sabemos dizer o que motivou o quê”, afirma Dina Coelho, responsável de marketing e comunicação da Adico. “As esplanadas tiveram um boom e a Cadeira Portuguesa era um fit perfeito.” O que sabemos é que esta silhueta acabou por se tornar o “uniforme” das esplanadas de norte a sul do país.

Durante décadas, essa presença foi sobretudo assegurada pela Adico – com fábrica em Avanca, Aveiro, que ficou conhecida por produzir a cadeira 5008, o modelo original da Cadeira Portuguesa –, apesar de outras variações do modelo de outras marcas lhe terem seguido as pegadas. O protagonista desta história é, acima de tudo, o próprio objeto (que qualquer pessoa reconhece independentemente do rótulo

A estrutura é simples: três tubos metálicos curvos formam o corpo da peça, criando um desenho simultaneamente leve e robusto. O assento pode ser metálico ou em madeira e a inclinação particular das pernas dá-lhe uma aparência quase suspensa. É uma ilusão de instabilidade que desaparece assim que nos sentamos. 

“O design, os acabamentos e a matéria–prima mantiveram-se praticamente iguais ao longo das décadas”, explica Frederico Ventura, responsável pelo backoffice da Adico. “Continua a ser a mesma cadeira que começou a aparecer nas esplanadas portuguesas há quase cem anos.”

Talvez por isso a Cadeira Portuguesa também seja conhecida como Cadeira Gonçalo, nome que a Arcalo lhe deu quando começou a produzi-la na década de 1930. A cadeira com nome de gente foi uma homenagem ao mestre serralheiro Gonçalo Rodrigues dos Santos, que eternizou a sua mestria. 

Na fábrica da Adico, em Avanca, são atualmente produzidas cerca de 15 mil unidades por ano. “Continua a ser o nosso bestseller”, afirma a responsável de marketing e comunicação da Adico, Dina Coelho. “É um verdadeiro case study de longevidade. Vende-se sozinha!” Há mais de 30 cores disponíveis. Frederico Ventura brinca dizendo que é possível pintar cadeiras de qualquer tom que lhes seja pedido – até de “cor de burro quando foge”. 

 

Apesar de o seu design se manter inalterado, nos últimos anos a Cadeira Portuguesa entrou também no território da arte e da edição limitada. Em 2025, a Adico convidou o arquiteto Kengo Kuma a reinterpretar a Cadeira Portuguesa para o Pavilhão de Portugal na Expo 2025 Osaka – e assim surgiu a cadeira 5008 Osaka. No mesmo ano, a BICA convidou o artista Pedro Cabrita Reis a interpretar de forma autoral a peça, numa série limitada e numerada de apenas 25 exemplares – e assim nasceu a bicachair by Pedro Cabrita Reis.

 

Neutra ou colorida, camuflada ou vistosa, produzida na histórica fábrica ou por marcas que a reinventam, a Cadeira Portuguesa é presença assídua nas nossas esplanadas. Talvez por isso seja tão fácil esquecermo–nos dela. Sentamo-nos, pedimos um café e raramente paramos para pensar na cadeira que nos sustenta. Mas ali está ela, há quase um século, a convidar-nos a sentar à mesa – como um daqueles clássicos discretos que fazem parte da nossa vida sem precisarem de se anunciar.