Há uma imagem que quem já percorreu o Alentejo nunca esquece: casas baixas, caiadas de branco, com uma faixa azul ou amarela a contornar portas e janelas. Paredes que cintilam ao sol de agosto, recortam o horizonte plano e cheiram a cal na chegada da primavera. Esta paisagem deu origem a um dos vinhos mais populares da Adega Mayor – Caiado, agora disponível em garrafeiras e supermercados – e do mais recente Caiado Colheita Selecionada 2024, um vinho tinto reservado a restaurantes, cafés e hotéis.

 

A prática alentejana de caiar foi, antes de mais, uma resposta simples às exigências do clima, da higiene e da vida em comunidade. A aplicação de cal viva nas paredes exteriores das casas está enraizada no saber popular e na história da presença islâmica na Península Ibérica. Muito antes da medicina moderna, já a cal era valorizada pelas suas propriedades desinfetantes e antibacterianas, que funcionam como uma proteção eficaz contra a peste, a cólera e outras doenças.

A cal era produzida em fornos de pedra, onde o calcário era aquecido a mais de 1000 graus. Depois, esta seguia para as aldeias em carroças ou pelo rio Guadiana. A sua popularidade devia-se a razões práticas: o branco das paredes refletia a luz e parte do calor do verão alentejano, ajudando a manter as casas mais frescas no interior. Também protegia as casas construídas em taipa e adobe das intempéries. Já as faixas coloridas em contraste com o branco, sobretudo em tons de azul e amarelo, eram uma forma de afastar insetos e maus espíritos. Além do mais, o material era acessível a todas as bolsas.

Um dos aspetos mais marcantes desta prática era a sua dimensão feminina e comunitária. O ritual ganhava forma quando as mulheres se juntavam para raspar e caiar as paredes exteriores, renovando em conjunto as ruas da aldeia. A vaidade e a competição saudável entre vizinhas também alimentavam esta tradição – afinal, não era por nada que se dizia que quem vê uma casa por fora imagina o que está por dentro. A caiação não acontecia em qualquer altura. Páscoa, festas dos santos padroeiros e casamentos eram os momentos escolhidos. Abril e maio eram os meses ideais, graças ao tempo seco e às temperaturas ainda amenas.

Caiar é um processo profundamente enraizado no Alentejo. Caiava-se muito e com frequência, reflexo do cuidado que havia com a limpeza. Caiava-se a “frente” e as “casas” – ou seja, tanto a fachada quanto as divisões interiores. A escritora, jornalista e investigadora Maria Lamas, no livro As Mulheres do Meu País (1948), registou bem esse hábito. Ao perguntar a uma alentejana “Quantas vezes costuma caiar a casa, para a manter assim tão branca?”, ouviu uma resposta simples e reveladora: “Quantas vezes? Ora essa! Não tem vezes certas. A casa caia-se antes que seja preciso!”

A partir de meados do século xx, o tijolo furado, o cimento e as tintas plásticas foram substituindo a cal. Mais duráveis, as tintas sintéticas reduziram a necessidade de repetir a tarefa várias vezes por ano. Ironicamente, podem danificar edifícios históricos, por não serem compatíveis com materiais tradicionais como a taipa e o adobe. Perante o risco de perda desta prática, vários municípios alentejanos distribuem anualmente cal gratuita aos moradores. O crescente interesse pela construção sustentável também tem dado novo impulso à cal, hoje vista como um material ecológico, económico e cuja produção consome menos energia do que o cimento.

O nascimento do Caiado…

Em 2010, a Adega Mayor, projeto vitivinícola do Grupo Nabeiro – inaugurado em 2007 em Campo Maior com uma adega desenhada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira – lançou a sua primeira gama de entrada. Chegou então o vinho Caiado: um tinto jovem, frutado, sem passagem por madeira, mas com forte carácter alentejano. O rótulo destacava–se pelo aspeto de uma parede caiada em que se notavam as pinceladas. “Foi um passo importante para nos ligarmos às nossas raízes, à nossa essência. É uma marca que fica no ouvido e que, de certa maneira, é bastante universal”, recorda Rita Nabeiro. Enquanto a Adega Mayor assumia uma imagem mais séria e contida, o Caiado nascia irreverente e próximo de um consumidor mais jovem.

Em 2011, chegou o Caiado Branco. Mais tarde, o Rosé completou a gama. Em 2017, assinalando os dez anos da Adega Mayor, teve lugar um rebranding que uniformizou a imagem da marca, apostando numa ligação mais forte à sua identidade alentejana e na valorização das suas gamas de vinhos. Os prémios vieram confirmar o que os consumidores já sabiam: o Caiado Tinto 2019 recebeu o selo “Best Buy” da Wine Enthusiast, o Caiado Branco 2018 conquistou o Prémio Escolha do Mercado no Concurso Brancos de Portugal e, em 2024, dados Nielsen colocaram o Caiado no Top 3 dos vinhos alentejanos mais consumidos no canal Horeca.

…e a chegada a casa

Em outubro de 2025, ano em que celebrou a entrada na idade adulta, a Adega Mayor levou o Caiado, até então um exclusivo do canal Horeca, para a distribuição moderna. Por outras palavras, passou a figurar nas estantes de supermercados de todo o país. “Queremos estar onde os nossos consumidores estão, acompanhando o seu dia a dia”, explica Vanessa Germano, diretora de marketing da Adega Mayor. O momento foi assinalado com o lançamento de novíssimo Caiado Colheita Selecionada 2024, em exclusivo para hotéis, restaurantes e cafés. Trata-se de um tinto fresco, encorpado e estruturado, elaborado a partir de um lote composto por 40% de Aragonez, 40% de Trincadeira e 20% de Alicante Bouschet. Fruto de uma vinificação mais rigorosa, o Colheita Selecionada 2024 nasce no silêncio do alto Alentejo, entre vinhas desenhadas pelo sol e brisas da serra de São Mamede – é daqui que lhe vem a complexidade e o perfil gastronómico, pensado para estar à mesa e para refeições que podem companhia. E assim, a parede de cal tornou-se garrafa. Das aldeias alentejanas para o país inteiro, a tradição de caiar continua viva. A de brindar também.