Já não se espalham grãos de café acabados de torrar pelo chão de mármore da Torrefação Camelo para os arrefecer, como noutros tempos. Outras coisas, por sua vez, mantêm-se iguais ao que sempre foram. Como a verificação de qualidade do café verde, que uns quilómetros ao lado, na Novadelta – a fábrica principal do Grupo Nabeiro – já assenta num sistema automatizado que envolve braços robóticos, computadores e software. Pelo contrário, na fábrica da Cafés Camelo, fundada em 1937 no coração de Campo Maior, o processo ainda é todo ele manual e envolve um colaborador e uma faca de prova – uma espécie de sonda, pontiaguda numa extremidade e mais larga noutra. Uma ranhura a meio faz com que, depois de furar a saca e empurrar a sonda para o seu interior, os grãos de café entrem nela e saiam pela parte mais ampla diretamente para as nossas mãos. Na Torrefação Camelo, grande parte dos pro-cessos ainda são manuais, com bolas de torra à antiga, café empacotado à mão e pouca tecno-logia moderna envolvida. Aqui não estamos na Delta. Estamos na Camelo.
Onde tudo começa
Há coisas que o tempo muda, outras não. E a verdade é que a história da marca Cafés Camelo continua a ser indissociável da de Rui Nabeiro e da vila de Campo Maior. Foi o seu tio Joaquim quem, nos anos 30, iniciou a ligação quase secular da família ao negócio do café. Nessa época, levava café verde de Portugal para Espanha para aí ser torrado. Em Espanha, eram tempos de guerra civil. Em Portugal, sobretudo nas terras fronteiriças, e em especial em Campo Maior, eram tempos de passar a fronteira com sacas de 30 quilos às costas. Em linha reta, são apenas 15 quilómetros até Badajoz. Quando havia falta de bens, de um lado ou do outro, os homens ignoravam as fronteiras e desafiavam as autoridades.
Dotado de audácia, ambição e um apurado sentido de negócio, Joaquim percebeu que podia ser mais do que um intermediário. Percebeu que podia ele próprio torrar café e comercializar o produto final, em vez da matéria-prima. Assim constrói uma primeira fábrica, muito pequena e artesanal, e cria uma marca de café chamada Cubana. Entretanto, outro tio de Rui Nabeiro, João, cria uma marca de café para lhe fazer concorrência e chama-lhe Cubano. O negócio começa bem, mas perante a concorrência e, mais tarde, a perseguição da Inspeção das Atividades Económicas, decide vender a Cubana e começar do início.
Corria o ano de 1937. Joaquim convence o irmão Manuel – pai de Rui Nabeiro – e um cunhado, Vitorino Silveira, a criarem uma nova marca de café: a Camelo. Aos 14 anos, Rui Nabeiro já trabalhava com o tio e o pai no negócio da família. Está encarregado de transportar os sacos de café verde da estação à fábrica – mas depressa passa para a frente de um pequeno torrador manual.
Os segredos do café
É a partir desse momento que Rui Nabeiro começa a aprender os segredos do café. De como a torrefação consiste em colocar os grãos crus em contacto com o calor através da injeção de ar quente no tambor da torra – o que tem de ser feito com muito cuidado, equilibrando a quantidade de café na máquina, a entrada e saída do ar, a temperatura, o nível de humidade e a duração de toda a operação. Só assim a torra atinge o ponto perfeito, sem deixar os grãos crus nem os queimar.
A curva de torra nos Cafés Camelo é algo que tem sido aperfeiçoado ao longo das décadas. O café verde, então oriundo de Angola e que hoje vem de várias partes do mundo, é inserido no torrador a 220 °C, atingindo o ponto de inversão da temperatura por volta dos 98 °C, voltando a subir gradualmente até atingir a temperatura ideal. Assim que o café começa a estalar, é sinal de que está a ficar torrado. Diferentes tipos de torra dão origem a cafés com sabores diferentes.
São os mestres da torra da Camelo que decidem o momento de retirada dos grãos de café. A seguir, o café é arrefecido durante cerca de cinco minutos numa superfície de metal perfurada com um sistema de ventilação controlado. Este é o procedimento atual. Mas até meados da década de 1990, o arrefecimento ainda se fazia tal e qual como em 1937: despejando o café torrado das bolas de torra para o chão de mármore, para depois espalhar os grãos com ancinhos.
Embora fosse jovem, Rui Nabeiro já trabalhava como um homem feito. Acordava entre as três e as quatro da manhã e ia logo para a fábrica, porque era preciso acender as fornalhas e preparar as torras. Por volta das seis horas, chegava mais gente para ajudar a espalhar e arrefecer os grãos de café. Preparavam-se também os tachos de “papas”, utilizadas para colar os selos Camelo nas embalagens de cartão enchidas com o café recém-torrado.
Rui Nabeiro passa os anos seguintes dedicado à Cafés Camelo, onde aprende tudo o que há para saber sobre o mundo do café. Mas visionário como era, ambicionou mais. O golpe de asa viria em 1961. Pouco antes de celebrar o seu 30.º aniversário, Rui Nabeiro aplica todo o seu conhecimento e espírito de liderança na criação de uma nova empresa – a Delta Cafés, que arranca num armazém com 50 metros quadrados, duas bolas de torra e três empregados.
Passado, presente e futuro
Nas décadas seguintes, enquanto fazia crescer a Delta Cafés, tornando-a a empresa de café número um em Portugal – diversificando e internacionalizando o negócio, ao ponto de hoje o Grupo Nabeiro ter como principal objetivo a entrada no Top 10 mundial –, Rui Nabeiro nunca virou costas à Torrefação Camelo. Antes pelo contrário: manteve-a sempre por perto. Perto de casa, no centro da vila, a cinco minutos de distância a pé, e perto do escritório, no edifício em frente (bastava atravessar a estrada).

Sempre que chegavam lotes novos, o Senhor Comendador era o primeiro a provar o café. A composição de cada lote era um segredo só dele, apontado à mão num livro de receitas guardado ainda hoje num cofre ao lado do escritório. Cabe agora a Adelino Cardoso, mestre cafeeiro do Grupo Nabeiro, garantir que a Cafés Camelo e as outras marcas produzidas na Torrefação Camelo preservam as fórmulas originais dos seus blends e mantêm a qualidade e sabor de sempre.
Muito mudou desde 1937, mas há coisas que se mantêm iguais. Por exemplo, as sacas continuam a ser cortadas manualmente e, depois, a serem reaproveitadas no transporte do café torrado para a zona de torrefação, onde os grãos vão passar mais alguns minutos dentro das bola de torra – desta vez na companhia de mel, alfarroba e açúcar, para ganharem aquele adocicado tão apreciado em Espanha, onde o café se bebe com leche.
Este café torrefato, que dispensa a adição de açúcar pois já sai doce de Campo Maior, alimenta a marca Barco, que se vende em Espanha. Entre embalagens de Barco em grão e moído, a Torrefação Camelo produz cerca de 1200 toneladas por ano. Já da marca Cafés Camelo, um exclusivo de Portugal, produz-se à volta de 720 toneladas anualmente, apenas em grão e só para a restauração e hotelaria – embora não faltem contactos de clientes particulares a perguntarem onde o podem comprar.
Rui Nabeiro visitava a fábrica todos os dias por volta das 7h. Falava com os colaboradores, procurava saber se estava tudo bem. Era uma rotina que não se perdeu com a sua partida, apenas passou para as gerações seguintes. Hoje é Ivan Nabeiro, neto e administrador executivo do Grupo com o pelouro da Indústria, quem está mais próximo da Camelo. “Todas as semanas procuro ir lá. E não é só para visitar, mas para ter tempo de levar temas e aproveitar para conversar”, disse numa entrevista recente à ddd. “Faço-o com todo o entusiasmo, sempre a aprender e à procura de dar o melhor, honrando o legado do meu avô.”




