As avenidas da Cidade Luz respiram histórias, antigas e recentes, e carregam a mística de Paris em cada esquina num sem-fim de emoções. Entre Chagall e Amália: a Delta The Coffee House Experience abre portas no bairro que inspirou gerações de artistas.

Na Avenue de l’Opéra, o céu parece tocar a cidade. Larga, com fachadas claras e alinhadas, a avenida faz-nos sentir que a vida aqui pulsa com outra luminosidade, mesmo sob nuvens. Foi neste boulevard que a Delta Coffee House Experience abriu portas em julho, num bairro que irradia o bom gosto parisiense para o mundo. Séculos de História fazem sentir que Paris é indissociável da Arte. Depois de um café, respiramos fundo. O bairro oferece choques de beleza, lições artísticas e humanistas. Avançamos.

 

Chegar à Ópera é sentir o impacto da arquitetura, seja de metro ou de carro. Quando nos posicionamos no meio da avenida, à saída da Delta Coffee House Experience, captamos os dois extremos do boulevard. A sul, os hotéis junto ao Louvre, o Sena insinuado e as ruas estreitas da Rive Gauche, de ressonância medieval; a norte, a poesia da Ópera Garnier, que guia os sentidos e revela, entre arrojo e esplendor, as chaves da beleza parisiense.

A régua e o esquadro de Haussmann

Napoleão III, em pleno século XIX, sonhou com uma cidade capaz de criar impacto. Nessa altura, Paris era ainda uma cidade de becos apertados e escuros, onde a sombra da Idade Média se misturava com o fumo das fábricas. O imperador dos franceses idealizava uma capital que rivalizasse com Londres e Viena, queria erguer um palco de modernidade e ordem. Para cumprir a sua visão, entregou a Georges-Eugène Haussmann a missão de redesenhar Paris. E o barão Haussmann abriu avenidas largas onde antes havia ruas sinuosas, plantou jardins no lugar de terrenos baldios, alinhou as fachadas dos edifícios.

 

 

A cidade deixou de ser um labirinto para se tornar um espetáculo a céu aberto. Durante as décadas em que se abriram os boulevards e se levantaram os novos edifícios, Paris transformou-se num estaleiro. Havia demolições em massa e o pó provocado por obras tão gigantescas era tema nos jornais. Muitos escritores satirizavam essa realidade. Charles Baudelaire era um deles: mostrava-se fascinado e horrorizado pela obra de Haussmann. Escreveu muito sobre uma Paris em convulsão. Émile Zola, nos seus romances, falava da cidade como um palco de especulação imobiliária, corrupção e decadência moral.

No meio deste grande plano urbano surgiu a ideia de construir uma nova ópera. Teria de ser mais do que uma simples sala de espetáculos: funcionaria como coração da Paris imaginada por Haussmann. Um coração que ainda hoje bate repleto de mistérios fascinantes.

Paris.

A primeira de muitas Delta Coffee House Experience internacionais.

36 bis Av. de l’Opéra, Paris, França. Este é o endereço da primeira Delta Coffee House Experience a abrir portas fora de Portugal. Mais do que uma loja, é um espaço multissensorial onde o café se vive com tempo, alma e identidade portuguesa. Um lugar no coração da Cidade Luz, na icónica Avenue de l’Opéra, onde a tradição e a inovação se encontram, e a Delta concretiza a sua promessa de sempre: “Feel your coffee.” Para Clara Melícias, diretora das lojas Delta Coffee House Experience e e-Commerce do Grupo Nabeiro, este é um marco na história do grupo e um passo importante rumo ao Top 10 mundial das marcas de café. “Depois de dois anos de trabalho árduo, abrimos a nossa primeira loja fora de portas, em Paris – um mercado exigente, que valoriza verdadeiramente o café e com um enorme potencial de crescimento”, afirmou na inauguração. “Estar numa das avenidas centrais da cidade é uma oportunidade única para darmos notoriedade à marca Delta, mostrar o que sabemos fazer e dar a provar a qualidade do nosso café, diretamente ao consumidor francês. Esta parceria é mais do que estratégica, é um verdadeiro símbolo de portugalidade. Para nós, é essencial afirmar a nossa identidade nacional além-fronteiras – e é exatamente isso que estamos a fazer com a nova loja no coração de Paris.”

E porque um café combina sempre bem com um pastel de nata, o Grupo Nabeiro levou consigo a Manteigaria para Paris. “É uma parceria que já provou o seu sucesso no Porto”, lembra Clara Melícias. “Agora replicamos o conceito em Paris, combinando o pastel de nata com o melhor café português.” A nova Delta Coffee House Experience está aberta todos os dias, das 8h às 20h, e promete ser o ponto de encontro entre a tradição portuguesa e a exigência cosmopolita da capital francesa.

Impoência ontem e hoje

Em 1860, mais de cem arquitetos apresentaram projetos para a nova Ópera. O vencedor foi um jovem quase desconhecido, Charles Garnier, que entre a imponência e a elegância imaginou um palácio para a música, a dança e o esplendor.

O Palais Garnier ergueu-se como a joia mais valiosa da Paris haussmanniana: mármores brilhantes, recantos dourados, escadarias de pedra a perder de vista, enormes candeeiros e um teto a incentivar o sonho. Entre as peripécias da construção, algumas ganharam contornos de ficção. Ao descobrir-se um lençol freático no subsolo, construiu-se um reservatório de água sob a Ópera – a lendária “lagoa subterrânea”, que inspiraria o mito do Fantasma da Ópera. A Guerra Franco-Prussiana (1870–71) e a Comuna de Paris interromperam os trabalhos. A queda do Segundo Império (após a derrota de Napoleão III) também trouxe incertezas, mas o projeto continuou. A Ópera Garnier demorou 14 anos até abrir as suas cortinas em 1875. O arrojo do cérebro que imaginou o Palais Garnier consegue ainda hoje fascinar todo o tipo de artistas. Tem atravessado as épocas, funciona como um íman. 

Um teto de Chagall a inspirar a poesia à volta

Do alto das escadas Palais Garnier conseguimos ver a Delta Coffee House Experience e a agitação do Boulevard des Capucines, que forma a fronteira entre o 2.° e o 9.º arrondissements de Paris. Entramos no Palais Garnier e atravessamos os corredores com escadas de mármore para chegar à sala de espetáculos. Respiramos. Preparamos o corpo para o choque estético que se sente ao olhar para o teto pintado por Chagall em 1964 (o teto original, de 1865, foi mantido por uma estrutura que esconde o antigo com o novo).

Chagall foi convidado pelo escritor André Malraux, então ministro da Cultura, a pintar uma homenagem a 14 compositores de música clássica (de Mozart a Wagner, Ravel e Tchaikovsky). Há cenas poéticas com movimento neste teto moderno e colorido que contrasta com os dourados da sala. As cores de Chagall lembram-nos que Paris nunca se deixa aprisionar por linhas retas: é uma cidade sólida e volátil, monumental e íntima. 

Saímos da sala, estamos novamente na rua, contornamos o Palais, na parte de trás há portas e portões com placas. Há artistas que entram nestes acessos reservados. Durante mais de um século, de 1875 a 1987, o Palais Garnier foi também escola de dança. No topo do edifí-cio existem salas de ensaio perfumadas com a aura de centenas de jovens bailarinas que ali moldaram os corpos com o rigor necessário para dançar a disciplina que o bailado clássico exige. A alcunha de “petits rats” foi dada às alunas que viviam enclausuradas na Ópera a tentar alcançar o sonho de ser uma danseuse étoile. Marie-Claude Pietragalla foi uma delas: entrou na escola aos 9 anos e, em 1990, ganhou o estatuto de “étoile” quando dançava Dom Quixote. Foi das bailarinas mais importantes que o mundo conheceu. 

Nos cafés e praças que rodeiam a Ópera parece acontecer o mesmo que no teto de Chagall. Olhamos para esplanadas onde empregados vestidos a rigor, de movimentos elegantes, servem copos de vinho a qualquer hora do dia. Nas conversas dos desconhecidos, a liberdade dos sentimentos parece ser celebrada. Diz-se que Paris é o “palco do mundo”, o sentimento atravessa-nos também.

Continuamos a deambulação à volta da Ópera, do outro lado da rua, onde Proust se sentava a observar a sociedade e a escrever sobre ela. Diz-se que se escondia em recantos ou por trás de um jornal; às vezes, levava binóculos para melhor observar gestos e posturas. Viveu no bairro entre 1907 e 1919, no n.º 102 do Boulevard Haussmann. Muitas vezes estava doente ou debilitado; por isso, fez instalar em sua casa um Théâtrophone, invenção da época que lhe permitia ouvir espetáculos de teatro e ópera graças a um serviço telefónico por assinatura. Proust usava o Théâtrophone para ouvir Wagner: dizia conhecer de cor as suas óperas.

Voltamos a descer à Delta Coffee House Experience. Numa das ruas perpendiculares mais abaixo, olhamos para o  primeiro andar do restaurante Drouant, situado no 16 Place Gaillon. Aqui é atribuído todos os anos o Prémio Goncourt. Os membros do júri reúnem-se desde 1914, todas as primeiras terças-feiras do mês, para discutir literatura. Proust venceu o prémio em 1919, com o segundo volume de Em Busca do Tempo Perdido. Marguerite Duras foi laureada em 1984 com o livro O Amante; o prémio tornou a sua escrita ainda mais célebre no mundo. Depois disso, ao encontrar o Presidente François Mitterrand, diz-se que lhe terá dito: “Agora, sou mais famosa do que o senhor.” A escritora franco-marroquina Leïla Slimani, desde há uns anos a viver em Lisboa, apareceu grávida em 2016 para receber o prémio literário e foi abalroada pelos jornalistas. O seu livro Canção Doce contava uma história de infanticídio passada em Paris, e ela preparava-se para ser mãe pela segunda vez. Paris tem aura de arrojo. E essa força lançou carreiras de inúmeros artistas mundialmente.

Amália Rodrigues, a mais célebre cantora portuguesa, dizia dever o seu sucesso internacional ao “palco do mundo” parisiense.

Amália chegou a França pela primeira vez em 1949, vinha para a abertura da Casa de Portugal. Depois, cantou em espetáculos improvisados, uma vez para a atriz de Gilda, Rita Hayworth, no restaurante, agora transformado em boîte, Chez Maxim’s, no n.º 3 da Rue Royale.

Amália Rodrigues, a parisiense

Há uma fotografia de Amália Rodrigues no meio da Avenue de l’Opéra, em setembro de 1964, perto de onde está agora a Delta Coffee House Experience. Nela, levanta um braço. Estaria a chamar um táxi? Estaria a imitar um dos filmes americanos de Gene Kelly? Amália dizia apreciá-los mais do que tudo na vida. Ou levantava o braço, simplesmente, a pedir para o tempo parar? Todas as suas passagens pela Cidade Luz foram marcantes.

O centro do mundo artístico, na altura, estava em Paris. Portugal tinha escapado à Segunda Guerra Mundial, era um país fechado, vivia em ditadura. A música que passava nas rádios e nas televisões portuguesas era quase exclusivamente nacional, abrindo-se algumas exceções com poucos artistas franceses ou espanhóis. Amália chegou a França pela primeira vez em 1949, vinha para a abertura da Casa de Portugal. Depois cantou em espetáculos improvisados, uma vez para a atriz de Gilda, Rita Hayworth, no restaurante, agora transformado em boîte, Chez Maxim’s, no n.º 3 da Rue Royale. 

A nossa próxima paragem é a sala de concertos Olympia, no 28 Boulevard des Capucines, onde Amália atuou pela primeira vez em 1956, num festival de homenagem a Josephine Baker. Temos o Palais Garnier atrás de nós e conseguimos imaginar o nome “Amália Rodrigues” escrito na fachada do Olympia em letras grandes vermelhas.

No seu concerto no Olympia, Amália apresentou um reportório unicamente português. Cantou Coimbra, uma canção que teria depois inúmeras versões pelo mundo com o título April in Portugal (foi cantada por Eartha Kitt, Chico Buarque ou Julio Iglesias), e Barco Negro, que integrava a banda sonora do filme francês Os Amantes do Tejo. Falava com o público parisiense num francês perfeito e conseguiu o feito de unir os portugueses imigrantes com os locais. Numa utopia, a palavra “saudade” era pronunciada. Uma emoção estrangeira que se tornava familiar aos franceses presentes nesta sala de espetáculos onde Amália atuou inúmeras vezes ao longo dos anos. Existem gravações: os parisienses celebravam-na. Charles Aznavour escreveu-lhe mesmo uma canção, Aïe Mourir pour Toi.

Inúmeras vozes lusófonas ecoaram no Olympia. A palavra “saudade” voltou a ser pronunciada em 1996, com outro sotaque: “Sodade”, cantava a cabo-verdiana Cesária Évora. A imprensa ficou fascinada com a sua atitude. Paris descobriu que as mornas se cantavam de pés descalços.

Descendo a Avenue de lOpéra

Ao deixarmos o Delta Coffee House podemos optar por seguir para sul em direção ao Louvre. Passamos pela Rue Sainte-Anne e as suas mercearias japonesas até chegar ao n.º 36 da Rue de Montpensier. Aqui viveu, a partir de 1940, o artista Jean Cocteau. Existem inúmeros retratos seus  assinados por grandes fotógrafos, Cecil Beaton e Henri Cartier-Bresson fotografaram o artista múltiplo no Palais Royal. Cocteau por sua vez usava a magia deste jardim para imortalizar amigos seus quando o visitavam, Edith Piaf, Marlene Dietrich, Picasso, Jean Genet e a sua grande história de amor, o ator Jean Marais protagonista do filme A Bela e o Monstro.

Atravessando o jardim podemos ver a entrada dos artistas da Comedie Française, tantas atrizes e atores saíram desta sala depois de declamar palavras de mudança. Em frente, as colunas de Buren não passaram despercebidas quando foram instaladas no início dos anos 80, “eram demasiado modernas e intelectuais”, dizia-se. Deixando o jardim, encontramos a Rue Vivienne e as suas galerias. Aqui o designer Jean-Paul Gaultier abriu a sua loja em 1986, com silhuetas que misturavam o masculino e feminino, clamavam rebeldia made in France ao mundo. 

Não muito longe, também nos anos 89, instalavam-se os designers japoneses, Kenzo na Place des Victoires, Yamamoto nos Les Halles. Estas lojas mudaram agora de sítio, deixaram no entanto a sua mística no bairro, influenciando os movimentos seguintes. Paris sempre abraçou a mudança.

Caminhamos de novo em direção à Ópera. Entramos numa pequena rua que passa despercebida, vai dar à Place Édouard VII. Nela esconde-se um teatro de 1913. Começou por ser um cinema, o Théâtre Édouard VII, depois recebeu as comédias do dramaturgo Sacha Guitry. É um canto secreto na zona da Ópera. Nos anos 50, conseguiu fazer Orson Welles dar voltas e voltas ao bairro, falhando constantemente a sua fachada. Apelidou-o de “teatro camaleão”. 

Voltamos agora à Place de L’Opéra, contornamos o Palais para as suas traseiras e avistamos a azáfama dos Grands Magazins. Em 1893, dois primos da Alsácia abriram uma pequena loja na Rue La Fayette. Apenas 70 metros quadrados, cheios de tecidos e promessas. Poucos anos depois, compraram prédios vizinhos. Iriam transformar-se nas Galeries Lafayette. Atravessaram guerras, crises, cresceram. Viram nascer uma cúpula de vidro, acessível por escadas monumentais, democratizaram o luxo e a moda, continuaram o legado da Ópera Garnier na tentativa de trazer sonhos para o quotidiano. Quando se sobe ao topo das Galeries, o céu volta a aproximar-se de nós. Paris descobre-se e revela a Torre Eiffel e o Sacré-Cœur na sua montanha, a catedral de Notre-Dame adormecida na ilha. A nossa balada chega ao fim, caminhamos até à Delta Coffee House Experience para um último café expresso e um pastel de nata bem português no coração palpitante da Cidade Luz. Em Paris, o poder é desafiado pela rebeldia, a tradição convive com a vanguarda, e o cálculo nunca limita a imaginação.