Nascido do legado de Rui Nabeiro, o Imagi-Nação propõe uma nova forma de liderar: a partir das pessoas, dos territórios e das pequenas decisões do dia a dia. Mais do que homenagem, é um movimento contínuo que se propõe a inspirar, a partir de Campo Maior, a imaginar, em conjunto, um mundo mais extraordinário.
“Se todos quiséssemos, o mundo seria extraordinário.” A frase é simples e faz parecer fácil imaginar um mundo melhor. É ela o ponto de partida para Imagi-Nação, um movimento contínuo que quer transformar a imaginação em ação concreta. Nasce do legado de Rui Nabeiro e inspira-se na forma como viveu, como construiu caminho e distribuiu oportunidades sempre que pôde. Fica esse espírito de colaboração, de empatia, de humanidade. De perguntar quem precisa, antes de perguntar quanto custa.
Criado pelo Grupo Nabeiro, o movimento Imagi-Nação convida pessoas, organizações e comunidades a perguntarem-se: O que posso fazer, hoje, para melhorar a vida de alguém? Pode ser um projeto comunitário, um gesto de vizinhança, uma iniciativa numa escola ou empresa. Qualquer pessoa pode entrar em imagi-nacao-gruponabeiro.com, registar uma intenção e partilhar o que quer fazer, onde e quando. O site funciona como um mapa vivo de ideias e ações, mostrando que a mudança não vive unicamente de grandes planos e estruturas, mas de pequenas decisões repetidas com consistência.
Mais do que uma campanha ou um momento de homenagem, Imagi-Nação é pensado enquanto projeto de longo prazo. Integra o programa de tributo ao fundador do Grupo Nabeiro, mas aponta para o presente e para o futuro, propondo novas formas de liderar e inovar em comunidade. A liderança é entendida para além da gestão e dos objetivos financeiros, com uma visão mais abrangente, marcada por proximidade e responsabilidade.
A imaginação não é fuga da realidade. É a capacidade de ver alternativas, de identificar oportunidades em que saltam à vista dificuldades. O movimento fala de ativismo de subtilezas: pequenos atos, muitas vezes discretos, que, somados, criam impacto real. Em vez de esperar por soluções vindas de cima, Imagi-Nação aposta na iniciativa local e no sentido de pertença.
Em 2026, o movimento renova-se com um encontro no Centro de Ciência do Café, em Campo Maior. Um encontro de líderes, empreendedores, artistas, autarcas e pessoas ligadas ao setor social, que se juntam para pensar temas como humanidade, território, inovação com raízes e liderança com propósito. Campo Maior volta a ser ponto de partida, não como lugar de memória, mas enquanto espaço de experimentação.
A manhã começou com a Orquestra Sem Fronteiras, a tocar para um auditório cheio, acompanhada pelo coro das crianças do Centro Educativo Alice Nabeiro. A música marca o tom: este é um encontro que une território, educação, cultura e empresas no mesmo espaço. Seguiram-se quatro painéis, com nove oradores, cada um de sua área e origem. As palavras de Rui Nabeiro atravessaram o dia como linha de orientação e ecoaram em todas as conversas, nas palavras de todos os oradores, e ajudaram a traduzir o espírito do movimento e a tornar reais os critérios de ação.
A ambição é que, a partir de Campo Maior, a Imagi-Nação chegue a todo o país. Que toque autarquias, escolas, empresas, associações, cidades e aldeias. Que ajude a olhar para a realidade não apenas pelo prisma dos problemas, mas pelo das possibilidades que existem quando se juntam recursos, competências e vontade de fazer diferente.
Ao final do dia 27 de março, as centenas de pessoas que passaram pelo Centro de Ciência do Café levaram motivos e ferramentas para imaginar um mundo extraordinário. Ficam as histórias partilhadas, as ideias lançadas e as novas intenções registadas na plataforma. Fica também uma mensagem: qualquer pessoa pode ser líder da imaginação, desde que esteja disposta a transformar o que imagina em ação, por pequena que pareça. Exemplos disso são os perfis que se apresentam nas próximas páginas – dos oradores presentes na conferência.
“Ninguém sabe o impacto que vai ter noutra pessoa”
David Simas – Emerson Collective / Obama Foundation
David Simas trouxe a Campo Maior o olhar de quem tem trabalhado a relação entre liderança pública e participação cívica – e assim deixou meia plateia de lágrimas nos olhos. É diretor executivo de Investigação e Impacto na Emerson Collective e ex-presidente da Obama Foundation. Americano orgulhoso, tem raízes açorianas e alentejanas, bem presentes no seu português carregado de pronúncia. A partir da sua própria história familiar, aproximou-se do legado de Rui Nabeiro: “A conduta e os sonhos do senhor Nabeiro são os mesmos que eu vi do António e da Deolinda Simas.” Contou que foi educado para se lembrar sempre que ninguém é mais do que ninguém, e que Barack Obama confirmava isso diariamente: era exatamente igual, com ou sem câmaras à sua volta, a falar com a pessoa mais importante ou com a mais simples. David Simas sublinhou a importância de nos mantermos humildes e humanos a cada momento, já que “ninguém sabe o impacto que vai ter noutra pessoa”, seja numa conversa breve ou numa oportunidade oferecida no momento certo.
“Temos uma missão coletiva que não podemos falhar”
Gonçalo Lopes – Câmara Municipal de Leiria
O presidente da Câmara Municipal de Leiria e da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria, Gonçalo Lopes, fez mais de 200 quilómetros para levar a Campo Maior a perspetiva de quem vive o poder local como ponto de encontro entre comunidade, cultura e desenvolvimento. Habituado a gerir crises – da pandemia às recentes tempestades – falou de responsabilidade partilhada e de como as decisões dos municípios se cruzam diariamente com a vida das pessoas e das empresas. “Temos uma missão coletiva que não podemos falhar, de responsabilidade, que deve ser encarada vencendo o preconceito, respeitando a diferença. Tudo o que se pode construir constrói-se num ambiente colaborativo e de união”, sublinhou. E acrescentou que o momento em que vivemos obriga a coragem, determinação e rapidez: “Tomamos decisões para ajudar pessoas. Isso dá-nos a coragem necessária.”
“A liderança humanizada é fundamental e extravasa territórios”
Alexandra Machado – Girl MOVE
Ágil, pragmática e visionária. Assim é Alexandra Machado, fundadora e CEO da Girl MOVE Academy, organização que promove a educação e liderança de jovens mulheres em África. Alexandra trabalha desde 2013 na criação de oportunidades em contextos vulneráveis, ligando educação, liderança e impacto social à transformação concreta das comunidades. Neste dia, em Campo Maior, contou como a academia cresceu para lá da sua figura e hoje é um movimento vivo e articulado. “A Girl Move ultrapassou-me claramente a mim, como pessoa”, garantiu. “O que está em causa não tem nada que ver com a Alexandra ou com a equipa da Girl Move, mas com as Girl Movers, com o movimento e com esta comunidade que hoje em dia já está a trabalhar com o poder central, com o poder local.” Num painel dedicado a pensar “Comunidade e Território”, Alexandra sublinhou ainda que vivemos num tempo em que “há uma rutura total do que é a racionalidade, a previsibilidade” e que, quando o poder central funciona pior, ganham importância as “associações ou comunidades que se organizam em prol de valores comuns e que mobilizam para a ação”, como é o caso da Girl Move. “Os movimentos vivem de relação, não de estruturas. A liderança humanizada é fundamental e extravasa territórios.”
“Todas as organizações devem ter um papel ativo”
Filipa Mourão – Associação Salvador
“Não sou o Salvador”, disse entre risos a coordenadora de angariação de fundos e envolvimento da Associação Salvador. Filipa Mourão trouxe ao seu painel, com graciosidade e humildade, a urgência de pensar a inclusão como condição de base – e não como camada opcional – em cidades, empresas e políticas. Representando o trabalho iniciado por Salvador Mendes de Almeida, falou de autonomia, dignidade e do impacto muito concreto que as decisões de planeamento, investimento e desenho urbano têm na vida diária de quem vive com deficiência motora. Através de exemplos concretos de pessoas acompanhadas pela Associação Salvador, Filipa comprovou que já se imaginam – e constroem – caminhos melhores, todos os dias, e que há mais para sonhar e concretizar. “Todas as organizações devem ter um papel ativo na construção de uma sociedade mais inclusiva, mais digna, mais justa e mais humana”, afirmou, desafiando o auditório a pôr essa responsabilidade no centro da imaginação sobre o futuro.
“O que aproxima as pessoas são as pessoas”
Martim Sousa Tavares – Orquestra Sem Fronteiras
O maestro e diretor artístico Martim Sousa Tavares abriu a manhã com um concerto deste conjunto de músicos do interior do país, que pôs o auditório a bater o pé e até a cantarolar – mais ainda quando se juntou o coro de crianças do Centro de Talentos Alice Nabeiro – que lhe “fez [ganhar] o dia”, confessou. Mais tarde, no painel Inovação e Raízes, explorou temas como a proximidade e o sentido de comunidade. “Acho que a tecnologia está a afastar as pessoas. Nós temos mais tecnologia do que nunca e as pessoas estão mais zangadas do que nunca.” Para Martim Sousa Tavares, “o que aproxima as pessoas são as pessoas. O que junta dois humanos é a humanidade que eles têm entre si”. Acrescentou ainda: “Valorizo muito essa proximidade e isso leva-me ao conceito de propósito. É por isso que eu sou feliz tanto a tocar na Gulbenkian como a tocar numa aldeia: porque estão lá as pessoas, e isso interessa-me muito.”
“A tecnologia não tem consciência. Nós temos”
Alexandre Ruas – Claranet Portugal
“Não vos vou falar de tecnologia nem do meu percurso”, arrancou a dizer Alexandre Ruas, managing director da Claranet Portugal, o maior fornecedor de tecnologias de informação no país e especialista em soluções e serviços geridos nas áreas de Cloud, Workplace, Applications, Data & AI e Cyber Security. O campomaiorense recordou o seu primeiro contacto com Rui Nabeiro – uma história com mais de 35 anos –, quando foi pedir “ao senhor Rui” um equipamento de futebol para a equipa da escola, que ia jogar a Lisboa um torneio nacional. “O mais bonito é que, passado duas semanas, apareceram na escola 10 equipamentos”, contou. Os miúdos voltaram à Delta com a taça ganha, num gesto de gratidão. “Quando falamos de ter impacto de futuro, são estas histórias que nos fazem crescer, aprender e ter referências”, resumiu. Já sobre o presente, foi direto: “Acho que as ciências sociais e humanas vão ser diferenciadoras no nosso futuro. Eu sou um homem da tecnologia, adoro tecnologia, mas a tecnologia não tem consciência. Nós temos consciência e empatia.” Garantiu que é por isso mesmo que o mundo terá de continuar nas mãos das pessoas e pelos valores humanistas.
“Somos humanos e precisamos uns dos outros”
Abigail Indi – Mundu Nôbu
Ligada ao projeto Mundu Nôbu, criado por Dino d’Santiago para apoiar jovens de comunidades menos representadas e ajudá-los a descobrir o seu potencial, Abigail Indi trouxe para o palco do Centro de Ciência do Café as periferias e as diásporas, muitas vezes ausentes das conversas formais sobre o futuro. Falou na primeira pessoa, a partir da experiência em bairros da Grande Lisboa e da constatação de que determinadas zonas da cidade partilham estereótipos, invisibilidade e falta de oportunidades. “Eu sou das Galinheiras, um bairro muito pequeno do município de Santa Clara, Lisboa”, começou. Explicou como foi “a vários bairros diferentes, para entrar em contacto com várias realidades e com o contexto social em que as pessoas estão” e como percebeu que o ponto em comum era a ausência de portas abertas. “O que essas pessoas tinham em comum era a falta de oportunidades, os estereótipos associados a esses bairros”, disse. Deste percurso ficou uma certeza: “Ter contacto com essas realidades ajuda-me a compreender que somos humanos e precisamos uns dos outros.”
“A influência constrói-se pela forma como abrimos caminhos”
Rita Nabeiro – Grupo Nabeiro / Adega Mayor
É uma das impulsionadoras do movimento Imagi-Nação e subiu ao palco do Centro de Ciência do Café para conversar sobre “Liderança com Propósito e Legado”. A administradora executiva do Grupo Nabeiro e CEO da Adega Mayor tem hoje sob a sua responsabilidade áreas como Sustentabilidade e Propósito e também Pessoas, Cultura e Desenvolvimento, além do trabalho desenvolvido em várias organizações ligadas ao futuro sustentável das empresas. Em Campo Maior, falou em tom pessoal sobre legado e responsabilidade. “A influência também se constrói pela forma como abrimos caminhos para os outros”, frisou. “O legado não está apenas no que construímos, mas está sobretudo no impacto que deixamos no mundo.” Na véspera de uma data simbólica para a família, partilhou ainda a dimensão emocional do desumanizarNa véspera de um dia que seria tão especial, que era o aniversário do meu avô, celebramos a vida do homem tão maravilhoso, tão extraordinário que ele era. Tenho a certeza de que o meu avô, de onde quer que ele esteja, está a acompanhar e está de coração cheio, como eu estou.”
“A minha grande paixão é converter poder em amor”
Dino D’Santiago – Músico e ativista / Mundo Nôbu
Músico, autor e ativista, Dino d’Santiago tem feito da música uma ferramenta de reflexão sobre diversidade e pertença. O palco Imagi-Nação não foi exceção, tanto pelas reflexões em conversa como pelas canções que fecharam o evento e levantaram todas as pessoas presentes das suas cadeiras para dançar juntas. Na conversa que antecedeu o miniconcerto, o cofundador de Mundo Nôbu falou de poder, de vulnerabilidade e da importância de darmos com o coração aberto e de olhos postos nos outros, egos à parte. “Quando o outro olha para nós, humaniza-nos. Sentirmo-nos dependentes dos outros faz com que não sejamos superficiais, no nosso dia a dia”, afirmou, defendendo a interdependência como antídoto para a indiferença. Ao refletir sobre os lugares de poder, deixou o aviso: “A partir do momento em que temos acesso a poder, somos visitados por fantasmas.” A sua bússola, contou, é transformar esse poder em cuidado: “Aperceber-me de que a minha grande paixão é converter o poder no amor e na paixão que eu tenho pelo ser humano facilitou muito a minha vida. Senti que era muito difícil desvirtuar-me porque a grande paixão não é a matéria que conquistamos, os títulos – é como é que te consegues manter humano quando tudo à tua volta te tenta desumanizar.”




