Dos Açores a São Tomé e Príncipe, de Angola à Tailândia, o projeto Impossible Coffees foi somando origens, impacto e histórias que não cabem numa única chávena. Lançada em 2023, a iniciativa deixou de ser uma boa intenção para apresentar resultados concretos: já conta mais de 70 mil cafés vendidos (com retorno direto para as comunidades produtoras), 700 horas de formação e consultoria especializada e mais de 30 mil euros investidos em equipamentos, infraestruturas e na expansão de plantações. Nos Açores, por exemplo, já foram plantados 4300 pés de café.
“É um projeto que começou por querer descobrir cafés únicos, mas que, na verdade, acabou por revelar algo muito maior: pessoas únicas. Pessoas que, nos lugares mais improváveis do mundo, continuam a acreditar. Acreditam na terra, nas suas comunidades, no café como futuro”, disse Clara Melícias, diretora de B2C do Grupo Nabeiro, na apresentação pública da mais recente edição da iniciativa Impossible Coffees.
O quinto capítulo deste projeto leva a Delta às montanhas em torno de Gaitania, na região de Tolima, no sul da Colômbia, considerado um território emblemático na produção mundial de café. O impossível neste local nunca foi cultivar o grão, mas escolher ficar depois de décadas de conflito armado, isolamento e êxodo rural.
Na comunidade indígena nasa we’sx, um grupo de jovens decidiu contrariar a lógica do êxodo. Integrados na associação asocanafi, os jovens criaram o projeto yuppie (Young Professional People) e dedicaram-se à revitalização da produção de café. Este gesto de permanecer e reconstruir, mais do que um ato económico, foi (e é) uma escolha de coragem e de identidade inabalável.
Clara Melícias, a impulsionadora dos Impossible Coffees desde o primeiro instante, resume bem o espírito deste café colombiano ao dizer que “estes jovens escolheram honrar a sua cultura, crescer sem perder a ligação à natureza e fazer do café um motor de comunidade e de futuro”. É essa escolha que dá ao lote colombiano contexto e singularidade.
Eider Socorreño Palya, diretor do projeto yuppie, é a cara deste café “impossível” da Colômbia. A sua história espelha a da região. Depois de uma infância marcada pelo conflito e pela perda, o café tornou-se a via para construir uma alternativa sustentável. Em Lisboa, no evento de apresentação deste projeto, Eider falou do grão de café como quem fala de uma língua mística que alcança tudo e todos: “O café fala inglês, fala nasa yuga, fala italiano, fala tudo.”
Para os jovens de Gaitania, a tecnologia tornou-se ferramenta de trabalho: vídeos, encontros e viagens permitem, por um lado, adquirir conhecimento e técnicas novas; por outro, que o café e a comunidade sejam vistos pelo mundo fora. A esperança é que esta visibilidade se traduza em novas oportunidades, sem quebrar a ligação física e emocional à terra onde cresceram. E também conquistar as gerações futuras. “O nosso desafio tem sido incentivá-los a apaixonarem-se pela terra”, explica Eider, antes de partilhar um desejo pessoal: “Que os nossos filhos, por sermos uma comunidade indígena, muito ligada à terra, se apaixonem pelo que fazemos.”
De veleiro pelo Atlântico
A viagem da Colômbia até Campo Maior é longa e demorada – mais ainda por ser feita por mar. É que este blend integra o programa Fresh Coffee Clean Ocean, uma iniciativa que liga o café à saúde dos oceanos através do transporte marítimo em veleiro. São cerca de 20 dias de viagem à vela, que se traduzem numa redução entre 70 e 90% da pegada de carbono face ao transporte convencional.
Chegado às instalações da Delta em Campo Maior, à fábrica Novadelta, o café de Gaitania passa pelo mesmo ritual técnico a que todo o café verde é sujeito antes de estar qualificado a ser torrado: a mesa de provas no laboratório. É dessa prova – que é tanto de aferição da qualidade do café, para confirmar que não tem defeito e que o transporte foi feito em condições, quanto de análise das suas características sensoriais – que resulta a seguinte apreciação por parte do gestor de torrefação e mestre cafeeiro da Delta Cafés: “É um café de altitude, cultivado a dois mil metros, com três plantações de origem: Castilho, Caturra e Típica, um bocadinho diferente daquele que normalmente temos nas nossas lojas.” A combinação das três variedades botânicas dá ao lote uma identidade própria, com notas cítricas, nuances de chocolate e apontamentos de avelã, num perfil sensorial que o especialista descreve como “envolvente”.
Na torra, Cardoso optou por baixar ligeiramente a temperatura de entrada para evitar um choque térmico que destruísse compostos aromáticos iniciais, sublinhando que foi necessário “personalizar a torra de uma maneira muito especial”, porque o “benefício na origem e a altitude exigem uma leitura sensível”. Os grãos foram trabalhados com exatidão para que as diferentes notas se revelassem na bebida sem haver perda de intensidade, preservando sempre a identidade das origens.
Uma das surpresas deste lote é a sua aptidão para ser bebido com gelo, sem que a temperatura mais baixa “corte” ou adormeça as notas sensoriais. Proposto como oferta de verão, o Impossible Coffee Colômbia mostra que um café de origem pode ser leve e refrescante sem perder profundidade.
Além da técnica, há um diálogo silencioso entre quem cultiva e quem torra, que Eider descreve como um cruzamento de saberes: “Nós temos o grão, vocês têm o conhecimento para que esse grão saiba o melhor possível.” É uma forma de dizer que o café só cumpre o seu potencial quando é tratado com todo o cuidado.




