Ali está o letreiro original do Ritz, colocado no topo do edifício em 1959, ano de inauguração do hotel. Ao lado, o antigo luminoso da Pastelaria Suíça. Mais à frente, uma armação de óculos composta por tubos de néon vermelho brilhante que ornamentava a esquina da rua Carlos Mardel com a Morais Soares, em Lisboa, indicando a quem lá passasse a existência – desde 1955 – do Oculista do Chile. A loja mudou de morada, está agora umas portas ao lado, com uma fachada pequena e muito mais discreta. Teve sorte. A grande maioria dos mais de 250 objetos que compõem a coleção da Letreiro Galeria – que inclui desde reclamos luminosos, néones, letras metálicas, caixas de luz e tabuletas, a vidros pintados no verso com folha de ouro – são de negócios que já não existem.
Estamos num armazém da Fundição de Oeiras com cerca de 1500 metros quadrados. Foi aqui que Paulo Barata Corrêa e Rita Múrias – o casal de designers que tem levado a cabo a missão de preservar esta faceta da memória arquitetónica da cidade, expressa na tipografia e design dos seus letreiros – encontraram guarida temporária para a coleção. O destino dos terrenos está traçado: vão dar lugar a um megaempreendimento imobiliário que prevê a construção de 600 fogos para habitação, uma residência de estudantes, um hotel, zonas de comércio, escritórios e estacionamento. Quando, ao certo, ainda não se sabe.
Tudo começou em 2014, quando Paulo trabalhava na Baixa de Lisboa, “a área mais rica nesse tipo de letreiros”, como explica. “Começámos por fotografar letreiros numa componente de registo”. Depois de perceberem que estes desapareciam das fachadas quando um edifício entrava em obras, o que começou por ser um projeto fotográfico focado na tipografia depressa deu lugar a um plano de salvamento inspirado em museus internacionais – nomeadamente no Buchstabenmuseum, em Berlim, e no Neon Muzeum, em Varsóvia, ambos dedicados a preservar e expor letras e letreiros históricos, tipografia e sinalética – o polaco com maior incidência sobre neónes da era comunista. “Quando soubemos da sua existência, deu-nos imediatamente um clique: vamos tentar fazer isso aqui”, conta Rita.
Nos anos seguintes à crise económica, centenas de estabelecimentos comerciais encerraram. Com eles desapareciam décadas de identidade gráfica urbana. O rosto de Lisboa estava a mudar. “Os letreiros dos prédios e a sua tipografia são parte integrante da arquitetura de uma cidade”, diz Paulo, para quem a missão de preservar uma memória coletiva que não tem dono e que, sem intervenção, simplesmente desapareceria, se tornou premente. “Não consigo dizer que percentagem dos letreiros estaria no lixo se nós não os tivéssemos salvaguardado – mas diria quase todos.”
A recolha acontece à medida do possível. Paulo e Rita mapearam todos os letreiros e reclamos luminosos com interesse histórico da cidade. “Conheço as lojas, os restaurantes, tudo. Já fui a praticamente todos os estabelecimentos da cidade para apresentar o nosso projeto. E, para que não se esqueçam, envio um e-mail sempre que fazemos uma exposição ou quando sai uma reportagem.” Esta relação de proximidade e confiança dá frutos. Muitas vezes, quando uma loja fecha, o casal é chamado. Noutras, é por iniciativa própria: reparando num encerramento recente, desmontam e transportam os letreiros pelos seus próprios meios. E não é só em Lisboa. “Levo a rebarbadora e as escadas quando vamos de férias”, garante Paulo.
Cada peça é inventariada e investigada. “Temos os registos dos pedidos de licenciamento, com os desenhos técnicos e a memória descritiva da época. Sabemos concretamente qual é a idade dos letreiros. E depois fazemos a pesquisa para saber qual foi a evolução da loja ao longo do tempo, desde a sua fundação até esta fase final, que é, por norma, quando tiramos os letreiros.”
A fonte e o design dos letreiros são estudados a fundo. No espólio da Letreiro Galeria há tabuletas, letreiros comerciais e outro material antigo que remonta a 1878. Há fontes típicas do Estado Novo e design Art Déco, como o letreiro da Casa Pereira, na rua Garrett, que fechou em 2019. “É dos anos 30, temos o pedido de licenciamento. É da mesma altura de outro letreiro que temos aqui, da Livraria Aillaud & Lellos, que era uma Loja com História, e tem até o mesmo estilo de letra”, diz Paulo, complementando: “É engraçado como se influenciavam uns aos outros.”
O conhecimento adquirido nesta prática originou uma investigação académica. “Estou a fazer um doutoramento sobre os processos de licenciamento da Câmara Municipal e a memória gráfica”, explica Rita. Por trás do doutoramento está também a ideia de a investigação poder complementar as exposições que a Letreiro Galeria vem organizando para abrir o seu acervo ao público.
Exposições como “Cidade Gráfica” (2016), “Luzes da Cidade” (2020) e “Brilha Rio” (2021) receberam milhares de visitantes. Para janeiro de 2027 está já confirmada uma mostra na Baixa lisboeta a cargo da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. No prelo, ou quase, está também a publicação de um livro. “Queremos que tenha que ver com os bairros de Lisboa. Só da Baixa temos 90 letreiros, sobretudo de negócios e comércio, mas também de cafés e restaurantes.” Em aberto está ainda a possibilidade de a Letreiro Galeria organizar uma exposição em Matosinhos em colaboração com o município e a Casa do Design.
Na ausência de uma exposição permanente, por vezes, aos sábados de manhã, a Letreiro Galeria faz visitas guiadas ao seu armazém dirigidas a pequenos grupos (inscrições no Instagram @letreirogaleria). Mas nem estas visitas nem as exposições temporárias alteram o facto de a coleção estar guardada num armazém de onde Rita e Paulo sabem que, mais tarde ou mais cedo, terão de sair. O sonho é criar um museu. Um local onde todos possam usufruir da memória gráfica que tem vindo a desaparecer das ruas de Lisboa.
Já houve contactos com as câmaras municipais de Cascais, Oeiras, Lisboa e Amadora, mas nada de concreto surgiu ainda. O tempo urge. “Se tivermos um espaço, acreditamos que conseguimos contar a história da cidade através dos estabelecimentos comerciais e mostrar às novas gerações como era a cidade no tempo dos seus pais e avós”, diz Rita, que, no decorrer da sua investigação, percebeu que tudo isto, na verdade, faz parte dos ciclos de vida das cidades em constante renovação. “Sim, faz parte – mas é uma pena, não é?”
Os neónes da Delta
Reclamos guardados nas últimas três décadas contam uma história luminosa
Há mais de 30 anos que as fachadas dos clientes Delta são embelezadas por néones e reclamos luminosos produzidos em Campo Maior. O polo da Tecnidelta na vila raiana, que é a unidade de assistência técnica e produção de máquinas de café do Grupo Nabeiro, está incumbido dessa responsabilidade. E de consertar os que se avariam. Já a responsabilidade de guardar para memória futura os protótipos dos reclamos pertence à coordenadora Juca Gil, há mais de 25 anos com funções ligadas ao merchandising do Grupo Nabeiro. Sempre que um protótipo é aprovado para ser produzido em massa e enviado a cafés, restaurantes e pastelarias, Juca tenta levá-lo para o armazém de merchandising na Caia, nos arrabaldes de Campo Maior, onde uma história visual das últimas décadas da marca está a ser preservada, entre toldos, mobiliário de esplanada, neónes e reclamos luminosos. E funcionam todos. É só ligá-los.




