No Instagram, onde conta mais de 250 mil seguidores, mostra lugares isolados e as tradições das suas comunidades. Em Portugal, quer ressuscitar uma aldeia abandonada através do turismo responsável.

Antes ir 20 vezes ao mesmo lugar do que andar a contar países. João Amorim não se cansa de voltar aos lugares aonde aprendeu alguma coisa, se confrontou com preconceitos (seus e dos outros) ou entrou pela natureza inexplorada – resumindo, os lugares onde já foi feliz. Aos 34 anos, mostrar as suas viagens tornou-se o seu trabalho. Agora, está a reconstruir uma aldeia abandonada em Castro Laboreiro porque acredita que o turismo consciente pode mudar sítios abandonado.

João Amorim não identifica um momento de mudança, em que tenha deixado de viajar por prazer e passado a fazê-lo como um trabalho. O seu caso é mais particular: sem nunca ter viajado muito, sabia que queria fazê-lo: “Sabia que queria isto, mas não sabia como concretizá-lo”, conta. A oportunidade apareceu num “gap year”, depois do curso de Bioquímica no Porto e de experiências de trabalho dentro de portas que o deixaram insatisfeito (“trabalhei algum tempo numa serralharia e sentia-me melhor lá do que na empresa”). Há 12 anos, quando o conceito ainda não estava muito divulgado em Portugal, João ganhou uma bolsa para fazer um ano sabático. “Era a referência de que precisava na altura, para perceber que isto não era uma coisa estranha e que teria muito a ganhar com a experiência”, recorda. 

Com a namorada, saiu de Portugal no final do verão e viajou “atrás do sol” – criou o follow the sun, que é ainda o seu nome no Instagram. Entre viagens e trabalhos em quintas, escolas, hostels, conheceu a América do Sul e começou a criar uma noção da viagem enquanto aprendizagem constante. “Andava ansioso, a questionar as decisões que tinha tomado. Viajar deu-me tranquilidade. Os meus pais nunca me obrigaram a nada, mas vamos criando expectativas [em relação à vida e ao trabalho] pela maneira como as coisas funcionam à nossa volta. Vais a outros sítios e vês que as pessoas vivem de maneira diferente, que é possível fazer tudo de outra maneira”, resume.

Desta viagem inaugural a tornar-se viajante profissional foi um ápice: no regresso, começou a organizar viagens de grupo à Guatemala e depois ao Peru. “De repente, esse era o meu trabalho.”

“Andava ansioso, a questionar as decisões que tinha tomado. Viajar deu-me tranquilidade. Vais a outros sítios e vês que as pessoas vivem de maneira diferente, que é possível fazer tudo de outra maneira.”

Mostrar o mundo mais escondido

A sua página de Instagram é hoje central no seu trabalho de viajante profissional. As fotografias e vídeos mostram paisagens paradisíacas, com pouca gente e ainda menos turistas, ou conseguem ser pequenos documentários sobre tradições de comunidades recônditas em África ou na Ásia. Às vezes, pelo meio, lá aparece um vídeo a preparar um café Delta numa pequena cafeteira italiana numa montanha cheia de neve ou um drip coffee numa floresta da Índia. Depois de ser líder de viagens, com a proibição de voos durante a pandemia, o viajante tornou–se influencer. 

Ao longo dos anos, por causa das viagens que partilhava, foi somando seguidores (mais de 250 mil) e parcerias com marcas para produzir conteúdos nas redes. Não lhe pagam para viajar – “talvez se fizesse viagens mais comerciais” – mas é a viajar que decide gastar o dinheiro que ganha.

“Gosto de ir a lugares autênticos; o turismo em excesso corrompe. Tenho interesse por zonas inexploradas, não me interessam muito as cidades. Gosto de ir a sítios onde há preconceitos gigantes”, explica.

A dias de partir para a Etiópia, João Amorim recorda as suas viagens pela Cisjordânia ou a conversa que teve com o Shaman da ilha de Mentawai, na Indonésia: “Estávamos a entrevistá-lo e um amigo perguntou que idade ele tinha. Respondeu que não sabia, nem queria saber, e também não queria saber nada do nosso conceito de sociedade. É para isto que viajo: para aprender e construir empatia.”

Nem sempre, na conversa com uma comunidade isolada, sobressai o orgulho nessa forma particular de viver. João comentou, uma vez, com um pastor no Afeganistão que gosta de “ir a estes sítios porque aprende muito com as pessoas” e levou uma resposta desconcertante: “Mas a mim não me interessa aprender contigo. Não posso sair daqui, não tenho liberdade, não posso ter o que tu tens.”

Na Indonésia, numa vila das montanhas de Tana Toraja, João filmou a forma como a sociedade vive com os seus mortos e acredita que, até serem enterrados, estão num estado de doença. Dão tratamentos aos corpos para a sua conservação e alimentam-nos ritualisticamente.

Para chegar a estas histórias, dá jeito conhecer as pessoas certas. Muitas delas foram aparecendo pelo interesse comum nas viagens. Na sua última ida à Índia esteve com uma comunidade nos Himalaias durante os seus rituais de máscaras, “o local mais autêntico” em que já esteve – e tudo graças a um amigo etnógrafo, Vitor da Silva, que lá vive e estuda este povo. 

“Tive sorte de ter um contacto e ir ao sítio certo no momento certo. As máscaras fazem a transição do inverno para a primavera, acordam os deuses para combater forças negativas”, conta. “Curiosamente, estive em Lazarim [Lamego] na altura dos caretos e é exatamente a mesma coisa: um ritual pré-católico de máscaras que faz a transição para a primavera. É impressionante ver estas semelhanças. As pessoas pensam sempre que quem vive em tribos são pessoas atrasadas no meio da floresta. Não são.”

Viagens na sua terra

Quando está em Portugal, João também viaja. O seu interesse é o mesmo e, no Instagram, vai mostrando aldeias do país profundo. “Há uma zona do Douro Internacional que adoro: só no ano passado fui lá quatro vezes. Foi assim que conheci as casas do lugar que comprei”.

Há quatro anos, estava em Castro Laboreiro, Melgaço, e, ao final do dia, levaram-no a Varziela para ver o pôr do sol na aldeia. A relação entre estes dois lugares está marcada pela transumância ancestral da comunidade: no verão, viviam no alto, em Castro, e nos meses frios passavam o recheio completo das casas para as “inverneiras”, zonas onde o inverno era ligeiramente menos rigoroso. Varziela era um desses lugares, hoje desabitado. 

“Quis logo ter aqui uma casa, mas de repente vi que havia várias à venda e com um primo e o meu pai comprámos meia aldeia”, recorda. O objetivo é criar alojamentos para quem faz turismo de natureza e revitalizar a zona através deste negócio. “Eu acredito que nestas regiões, que estão um bocado esquecidas, o turismo responsável pode ajudar”, diz, dando o exemplo de outra aldeia, Fafião, no Gerês: “Há 15 anos, quando comecei a ir para lá, não havia nada; no ano passado nasceram sete bebés.”

No lugar de Varziela, as obras do turismo Fundo da Aldeia avançam e, em menos de dois anos, haverá alojamento para cerca de 50 pessoas. “Imagina termos todas estas pessoas espalhadas pelo rio. É menos provável que deixem lixo do que se estiver completamente abandonado e um grupo de miúdos passar aqui um dia. Os locais também ficam com outra responsabilidade e motivação. A conservação dos parques naturais em África é hoje feita pelos filhos de quem matava gorilas”, exemplifica. Mesmo com o risco do turismo massificado, a conservação tornou-se mais valiosa do que a caça ou o abandono. Depois de anos a andar por esses lugares escondidos e conservados, João Amorim quer agora pôr esta teoria em prática.