As três formas e feitios
A garrafa Borgonha foi batizada com o nome da região vitivinícola francesa famosa pelos seus tintos de qualidade, quase exclusivamente feitos das castas Pinot Noir e Chardonnay. Reconhecidos pelo seu grande potencial de guarda, circulam pelo mundo nestas garrafas clássicas e robustas, de ombros, bojo e fundo largos, ideais para reterem os sedimentos na hora de servir. São também de vidro escuro – geralmente verde, mas também âmbar – para proteger o vinho enquanto envelhece, ao bloquear a luz ultravioleta. E, em casos especiais, surgem até embrulhadas em serapilheira ou metidas em caixas, para proteção acrescida.
É na região de Bordéus que tem origem a garrafa mais utilizada em todo o mundo, a Bordalesa.
Em Portugal ainda persiste a ideia, algo antiquada, de serem as mais escolhidas para colheitas selecionadas, reservas e “pesos pesados” – o que não corresponde à realidade, pois existem excelentes vinhos em garrafa Bordalesa. Não admira que a Adega Mayor, que apenas a utilizava em gamas especiais, como o Amálias 100 ou os monovarietais Maestro, a tenha recentemente adotado para destacar os seus blends versáteis, da marca Caiado, e iniciado a transição dos monocastas para esta garrafa, como no Pinot Noir Rosé e no Verdelho (colheitas de 2024).
Continuando em França, é na região vitivinícola de Bordéus que tem origem a garrafa mais utilizada em todo o mundo, a Bordalesa – com ombros largos, na continuação do bojo, e pescoço abrupto, de modo a que, se houver sedimentos, não passem para o copo. Para distinguir certos vinhos, há variações na Bordalesa: os ombros ligeiramente mais largos, numa garrafa tecnicamente chamada troncocónica, indicam qualidade e carácter. Já a cor da garrafa é uma decisão do produtor. Contudo, os compostos químicos naturais presentes no vinho podem degradar-se com a presença da luz. Por isso, muitas vezes se opta pelo vidro escuro, em nome da preservação, especialmente nos tintos, que, por terem mais compostos antioxidantes, são neste aspeto mais sensíveis, por isso a maioria vem em vidro verde musgo ou mesmo âmbar. Nos brancos e rosés – até para que o consumidor veja a tonalidade do vinho –, a garrafa costuma seadotadaparente.
A Bordalesa tem ombros largos, na continuação do bojo, e pescoço abrupto, de modo a que, se houver sedimentos, não passem para o copo.
A terceira garrafa tem formRenana e Alsaciana – devido à sua origem: foi imaginada na região que, para os alemães, é do Reno, e para os franceses, Alsácia, famosa pelos grandes brancos da casta Riesling. Como a França usava o sistema europeu e o ReinoUnido o imperial, a garrafa de 0,75 litros foi adotadaiesling. Não é coincidência que em Portugal tenha sido adotada primeiro pelos produtores de Vinhos Verdes, a região portuguesa que tem características mais próximas destas (com a elegância e a mineralidade à cabeça), para distinguir os seus néctares dos das outras regiões nacionais.
Sendo a garrafa-símbolo da região, é usada tanto em blends de castas brancas, como nos monovarietais de Alvarinho. Geralmente de vidro verde-claro quando se trata de vinhos brancos, é transparente nos rosés e de tom caramelo/âmbar nos vinhos brancos de gamas superiores e em tintos. Também existem, porém, muitos brancos de outras regiões engarrafados no formato Renana – é uma maneira de o produtor assinalar que se trata de um vinho ideal para o verão e para acompanhar peixes e mariscos – como o Adega Mayor Esquissos – é +, um vinho branco de baixo teor alcoólico (9%) feito 100% de Arinto.
Como a França usava o sistema europeu e o Reino Unido o imperial, a garrafa de 0,75 litros foi adotada porque os barris de 225 litros equivaliam a 300 garrafas de 750 ml, o que facilitava o cálculo e a venda.
E o fundo côncavo?
Embora mais acentuado nos espumantes, o fundo côncavo – a cavidade inferior, conhecida entre os enófilos como punt – está presente em todos os formatos e serve para dar estabilidade e resistência às garrafas, porque ajuda a suportar melhor a pressão do vinho.
Há vários mitos em torno desta cavidade, claro. Que ajuda a reter sedimentos, para manter o vinho mais limpo na hora de servir, é um. Que torna mais fácil a refrigeração é outro. E que ser grande é um símbolo de qualidade do néctar, ainda outro. Mas esta cavidade existe apenas por uma questão de segurança: quanto maior for, mais vidro foi usado, ou seja, mais superfície. Assim, a pressão interna fica mais bem distribuída, o que significa que, se a garrafa bater acidentalmente em algum lado, o fundo (que é a parte mais frágil da garrafa) corre menos risco de se partir. Por fim, o facto de grandes vinhos se apresentarem muitas vezes em garrafas com cavidades mais fundas torna-as mais pesadas, pois mais vidro foi utilizado no seu fabrico, o que contribui para uma maior percepção da qualidade do vinho.
Embora mais acentuado nos espumantes, o fundo côncavo está presente em todos os formatos e serve para dar estabilidade e resistência às garrafas.
Do quarto de litro…
A garrafa de 0,75 litros é o tamanho mais comum, em qualquer dos formatos. Em tempos, pensou-se que esta medida exprimia a capacidade pulmonar dos sopradores de vidro, quando as garrafas eram feitas exclusivamente por métodos artesanais, mas a verdade é outra – igualmente histórica e bem prática: este tamanho surgiu de uma necessidade de padronização no comércio, para evitar confusões. Como a França usava o sistema europeu e o Reino Unido o imperial, a medida foi adotada porque os barris de 225 litros equivaliam a 300 garrafas de 750 ml, o que facilitava o cálculo e a venda.
Com metade do tamanho, a medida de 0,375 litros é popular entre consumidores individuais: num vinho que não se conhece, o risco de não se gostar do conteúdo é amenizado pelo investimento menor do que se fosse uma garrafa inteira. É conhecida internacionalmente como Demi e Fillette, mas em Portugal chamamos-lhe sobretudo “meia garrafa”. Segue-se o quarto de litro, nome que no estrangeiro corresponde a uma medida mais pequena, de 0,1875 litros, também conhecida como Piccolo, Benjamín ou Split. Alguns produtores comercializam-na em tintos e brancos de consumo imediato. Raramente com distribuição em supermercados, encontram-se sobretudo em cantinas e res-taurantes self-service de bombas de gasolina e aeroportos, aviões e ocasionalmente hotéis e restaurantes dirigidos a turistas.
Do outro lado do espectro surgem primeiro as garrafas Magnum, um dos formatos de grande capacidade, neste caso para 1,5 litros de vinho. É um tamanho direcionado para celebrações e que, por ser mais raro, costuma atingir preços altos em leilões.
… Aos gigantes bíblicos
Com 3 litros, a Double Magnum é também conhecida por Jeroboam, evocando o rei de Israel (Jeroboão) que, no Antigo Testamento, se opôs a Salomão. Sob o seu reinado, as dez tribos de Israel foram unificadas, razão pela qual o seu nome ficou associado a megalomania. Por cá, há também quem lhe chame Golia, evocando o nome do gigante bíblico Golias que amedrontou Israel.

A medida internacional do Roboão, especialmente usada pelos grandes Chateaux de Bordéus, que a chamam Réhoboam, é de 4,5 litros, mas em Portugal adota-se mais a capacidade de 5 litros. É indicada para grandes festas e para vinhos excecionais, com algum potencial de guarda, uma vez que o tamanho grande garante, dependendo da qualidade do vinho, um envelhecimento mais harmonioso (graças a um menor contacto com a superfície da garrafa, enquanto está na cave, em repouso). Na Adega Mayor, só os melhores vinhos de guarda, como o Reserva do Comendador tinto 2018, feito de Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional e ideal para pratos de caça e bem condimentados, surgem no mercado neste tamanho, no caso numa garrafa Bordalesa de ombros largos – como se costuma dizer, à grande e à francesa.
Internacionalmente, alguns grandes produtores usam excecionalmente tamanhos superlativos, especialmente para vinhos que celebram efemérides, casos da garrafa Imperial (também conhecida por Matusalém), com capacidade de 6 litros, Salmanazar, de 9 litros, Baltazar, de 12 litros, Nabucodonosor, de 15 litros, Melchior (ou Salomão), de 18 litros, o que equivale a 120 copos, e Melquisedeque (ou Midas), de 30 litros. Todos os nomes são referências bíblicas. Em Portugal, estes tamanhos são muito raros, mas já têm sido usados em ocasionais vinhos de coleção. Como a França usava o sistema europeu e o ReinoUnido o imperial, a garrafa de 0,75 litros foi adotadotada Bordalesa, têm sido usadas nas gamas Comendador e Pai Chão, exclusivamente para colheitas de anos excecionais, portanto, com potenciais de conservação muito acima da média.




