Dia 1: Muralhas, museus e vila piscatória

Começar por Peniche é começar pelo mar. A primeira paragem é forçosamente a Fortaleza de Peniche, antiga prisão política, onde funciona hoje o Museu Nacional Resistência e Liberdade: um espaço que convida ao silêncio, à memória e ao respeito pela História. A visita é, como seria de esperar, dura, e demora à vontade uma manhã inteira. Vira-se a página – e o estado de espírito – com uma visita ao Museu da Renda de Bilros e à sua escola, que opera diariamente de portas abertas, para que se possa testemunhar a delicadeza e a rapidez com que trabalham as mãos das mulheres penichenses que aqui se encontram.

Ainda no centro da cidade, a Igreja de São Pedro, fundada em 1589, surpreende com um interior barroco riquíssimo – guarda ainda um órgão construído em 1771. A dois passos fica o Mercado Municipal, vibrante e abastecido pelos mesmos barcos que atracam no Porto de Peniche, onde se assiste ao vai-e-vem das traineiras e à consequente roda-viva das gaivotas no ar.

Seguindo caminho, alcança-se o Cabo Carvoeiro, um dos cenários mais emblemáticos da região, de onde se avista a rocha esculpida da Nau dos Corvos. O vento costuma ser tão intenso que custa caminhar contra o seu sopro. Na direção oposta, mas bastante perto, fica a famosa praia do Medão, também conhecida como a praia dos Supertubos. O dia termina à mesa da Tasca do Joel, conhecido restaurante na região, popular pelos produtos de alta qualidade – a mercearia instalada à entrada do espaço é uma verdadeira perdição.

Dia 2: Um istmo e duas praias formam o paraíso

O Baleal chega quase sem se anunciar – mas a energia é logo outra. Não é vila nem aldeia, antes uma pequena península ligada ao continente por uma língua de areia que convida a deixar para trás o resto do mundo. Do Miradouro das Praias vê-se o areal estender-se da praia das Pedras Muitas à Baleal Norte. Uma boa forma de conhecer os percursos costeiros é fazer o Trilho das Praias do Baleal, um circuito com mais de 13 quilómetros. Pelo caminho, note-se a pequena Cascata do Baleal, tão inesperada como discreta na paisagem.

Entre as praias Norte e Sul vive-se para as ondas. Aluga-se pranchas, marca-se aulas e aprende-se a ler o mar – seja para surf, seja para bodyboard. No extremo do Baleal fica a Ermida de Santo Estêvão, de frente para o Atlântico, mas raras vezes tem as portas abertas. Pela falésia adiante, dá-se com o Fortim dos Franceses, ou o que sobra do forte construído aquando das Invasões Francesas. O caminho até lá vale pelo cenário imponente e silencioso. No final, já só se avista a Berlenga Grande sobre o mar. É a maior das três ilhas e a única que se pode visitar, mas apenas entre março e outubro. A água é transparente (e gelada) e as paisagens esmagadoras.

O sol parece pôr-se ainda mais bonito visto do Bar do Bruno. A esplanada abrigada é o lugar ideal para observar quem se aventura nos desportos náuticos e para ver cair a noite sobre o horizonte enquanto se petisca um hambúrguer, um tártaro ou ainda os afamados mexilhões à Bar do Bruno.

Dia 3: Autenticidade, tradição e natureza

A viagem continua, com um pequeno desvio para o interior. Nas Caldas da Rainha, o dia começa cedo na Praça da Fruta, onde as bancas coloridas compõem um dos mercados diários ao ar livre mais belos do país. A escassos metros fica o Parque D. Carlos I, um jardim romântico que abraça o antigo hospital termal da cidade, um edifício imponente, atualmente devoluto e que contribui para a aura do parque. Em pleno jardim encontramos o Museu José Malhoa, com coleções de pintura, escultura e cerâmica dos séculos XIX e XX.

Pela porta nordeste do parque vai-se diretamente às Termas das Caldas da Rainha. Fundado em 1485 pela rainha D. Leonor, é o mais antigo hospital termal do mundo, conhecido até hoje pelas águas ricas em propriedades minerais, com vários benefícios terapêuticos. A Piscina da Rainha, visitável por marcação, é uma histórica piscina termal, localizada no interior do edifício, e que permite conhecer melhor a sua história. Antes de regressar à estrada, uma última e inevitável paragem: a Fábrica Bordallo Pinheiro e a sua loja de dois andares, um testemunho do legado do artista nas Caldas da Rainha.

Novamente em direção à costa, é obrigatório parar no Solar dos Amigos, restaurante emblemático da região. A quantidade de carros estacionados à porta corrobora a fama do espaço, que sendo enorme, acomoda sempre mais um. É em tudo uma casa de avó, tipicamente portuguesa: das toalhas floreadas à comida de conforto. A grelha plantada numa das muitas salas de refeição denuncia os bons grelhados, mas as especialidades mantêm-se as bandarilhas de borrego, os cascos à Ribatejo e a tiborna de bacalhau.

A tarde prossegue junto ao mar. A praia da Foz do Arelho tem duas caras: a calma, do lado de dentro, da lagoa de Óbidos, e a brava, do lado do Atlântico. Com vista para ambas, os passadiços da Foz do Arelho percorrem a falésia, com vários miradouros pelo caminho, que convidam a parar, olhar e respirar. O recorte natural da encosta vai revelando novas perspetivas da paisagem. Não fosse o vento, querer-se-ia ficar até à noite.