Dia 1: A geografia que explica tudo

Começar a conhecer o Porto Santo pelo alto é a melhor forma de perceber o território. A subida até ao Miradouro da Portela revela logo o contraste que define a ilha: de um lado, a linha contínua do areal; do outro, relevos vulcânicos que lembram a origem bruta do arquipélago. A vista é avassaladora. É também aqui que se encontra o icónico moinho de vento que pontua muitas das imagens do Porto Santo e que ajuda a situar a paisagem.

A manhã continua rumo à Fonte da Areia, onde a paisagem muda de tom. Entre falésias e pequenas grutas esculpidas pelo vento e pelo mar, encontra-se uma zona menos visitada, marcada pelo som constante do mar. É um dos locais onde a força da natureza mais se faz sentir.

O almoço pede mesa no restaurante João do Cabeço, conhecido pelo ambiente descontraído e pela cozinha regional. Entre especialidades locais e peixe fresco, percebe-se bem a relação da ilha com o mar. Depois da poncha, peça-se o cafezinho, que o dia ainda só vai a meio. 

Não muito longe fica a Praia do Zimbralinho, pequena enseada abrigada e de águas cristalinas, ideal para um banho de mar – ou, pelo menos, de sol. O acesso faz-se por um trilho, o que ajuda a preservar o caráter quase secreto do local. 

Seguindo para o interior, o caminho conduz ao Pico Ana Ferreira, uma das formações geológicas mais impressionantes da ilha, com cerca de 300 metros de altura. As colunas prismáticas de basalto – resultado do arrefecimento lento da lava – criam uma escultura natural rara e deslumbrante. O trilho até ao topo, acessível, oferece diferentes perspetivas sobre a ilha e o mar que a rodeia: sempre bonitas.

Ao final do dia, o regresso ao centro da ilha ganha outro ritmo com uma paragem no Bar Girassol, perfeito para ver o pôr do sol de copo na mão.

Dia 2: A ilha em azul e verde

O segundo dia começa cedo e com uma paisagem verde, na vereda do Pico Castelo. O trilho é bastante verde: cruza uma das zonas mais arborizadas da ilha e, ao longo do percurso, surgem miradouros naturais e vestígios históricos, incluindo estruturas ligadas à defesa insular ao longo dos séculos. A subida é progressiva e permite ir observando as diferenças na vegetação, consequência do processo de reflorestação iniciado por António Schiappa de Azevedo no início do século XX para combater a erosão e criar a mancha verde que hoje se vê. Exemplos disso são os pinheiros-de-alepo, os pinheiros-bravos e o cedros que se vão vendo pelo caminho.

Aproveitando o embalo, a Quinta das Palmeiras, pequeno oásis botânico e ornitológico, também merece uma visita. Entre lagos, palmeiras e aves exóticas, o espaço contrasta com a aridez natural envolvente. É uma pausa perfeita para quem aprecia natureza e fotografia.

De apetite aberto depois de uma manhã na natureza, segue-se caminho para o restaurante O Calhetas. Conhecida pelo peixe e marisco, a casa mantém-se fiel aos sabores tradicionais da ilha. A vista para o mar, seja da sala ou da esplanada, marca a experiência e fica na memória.

A tarde pede praia – ou será piscina natural? A Calheta é zona de piscinas naturais e ponto de partida para caiaques até ao ilhéu da Cal ou à praia do Zimbralinho. A zona do Cabeço, entre o Campo de Baixo e o Cabeço da Ponta, é parti-cularmente procurada pelas propriedades terapêuticas atribuídas à areia fina e dourada. No verão, a água atinge facilmente os 25 ou 26 graus.

O dia termina no Porto Santo Hotel & Spa. Inaugurado em 1963, foi o primeiro hotel do Porto Santo, desenhado por Eduardo Anahory com Pedro Braamcamp Cid. Modernista, leve e integrado na paisagem, tem o ambiente certo para um copo ao pôr do sol.

Dia 3: Clássicos de última hora

Na costa norte, o Porto das Salemas é incontornável. A pequena baía de águas transparentes é protegida por formações rochosas que criam um cenário quase intocado. O acesso exige atenção (e até alguma sorte), mas a recompensa está garantida: é uma das paisagens mais surpreendentes do Porto Santo e, sem dúvida, um dos melhores lugares para um mergulho demorado e uma pausa ao sol.

A paragem seguinte é a imponente Fenda Dona Beja, uma falha num desfiladeiro que conduz ao interior de uma gruta monumental. O percurso deve ser feito com cuidado e não é aconselhável a todos, mas oferece uma das experiências geológicas mais marcantes da ilha – revela a força da atividade vulcânica que deu origem ao território.

Ao almoço, mete-se o Pé na Água – não literalmente, mas quase. O nome do restaurante diz muito sobre ele: a proximidade do mar e o ambiente descontraído criam o cenário perfeito para uma refeição demorada e prazerosa. São de provar os vários petiscos com peixe e marisco, pensados para partilhar à mesa.

De regresso à Vila Baleira, a tradição cumpre-se no Lambecas. Desde 1961 que José Reis Dionísio Leão serve gelados de máquina no quiosque virado para o largo do Pelourinho, que, a esta altura do campeonato, mais valia chamar-se largo do Lambecas. Os sabores dos gelados mudam a cada lambidela, e ainda mais à medida que o fim se aproxima, e é praticamente proibido usar colheres para os comer. “Isto é Lambecas, não é Colherecas”, diz José, entre risos.

Para fechar o último dia, sentamo-nos à mesa do restaurante Teodorico, instalado em plena serra de Fora. Rodeada de vegetação, a casa é conhecida pela típica espetada madeirense, servida como manda a tradição, pendurada verticalmente num espeto sobre a mesa.