Uma taberna onde o cozinheiro vem à sala anunciar a chegada de clientes com um chocalho e alusões caprinas. Outro em que a ementa é cantada de cima de uma mesa.
A Ribeira
Onde a ementa é cantada
A expressão “fala-me a cantar” cabe que nem uma luva na performance de Carlos Carriço, dono do restaurante A Ribeira, em Montemor-o-Novo. É numa espécie de rap alentejano que todos os dias (e várias vezes por dia) canta a ementa aos clientes, no cimo de uma cadeira, na sala, ou de um poço, na esplanada, enquanto estala os dedos e bate palmas para marcar o ritmo. “Sempre tive grupos grandes, de jovens, e comecei a fazer isto para chamar a atenção deles”, confessa Carlos. Os clientes habituais ajudam Carlos nas cantorias e os novos surpreendem-se com as atuações, mas rapidamente entram na brincadeira. À música – no final da refeição, munido de uma máquina de calcular, Carlos canta a conta em fado – junta-se uma ementa tipicamente alentejana. Sui generis, A Ribeira é uma referência desde a fundação, em 1999. Para provar, há tiras de choco frito, migas à alentejana, entrecosto, perninhas de rã e sericaia com ameixa de Elvas. Ao fim de semana, a ementa contempla ainda borrego ou javali assados.
O “Xico” dos Presuntos
Onde o rácio de sandes é notável
Nacos e nacos de presunto dentro de um pão biju (ou molete ou papo–seco) é o que motiva romarias a este estabelecimento. A excentricidade gastronómica é o maior chamariz desta instituição portuense, uma das poucas tascas tradicionais que ainda resiste na cidade – tradicional em tudo exceto nas monumentais doses de presunto que coloca dentro de uma sanduíche. “Não pesamos, é tudo a olho. Sempre foi assim”, conta Francisco Braga, o Xico que dá nome à casa. Está aberta há mais de 30 anos na zona oriental da Invicta, entre o Bonfim e Campanhã, e as filas que se formam à porta atestam a qualidade do que ali se serve. O espaço é pequeno, com mesas e balcão, e os canários dão as boas-vindas a quem chega com a barriga a dar horas. Além das icónicas sandes de presunto de Castelo Branco, cortado sempre fininho e servido em doses monumentais, há ainda pratinhos de queijo de ovelha de Celorico da Beira, salpicão de Cinfães, rojões, pataniscas, fígado de cebolada e orelheira. Recentemente, a Casa dos Presuntos O Xico ganhou um irmão mais novo, O Xico Pega & Anda, na zona dos Poveiros.
Tia Rosa
Perto da praia onde o pato assado é rei
Um restaurante de estrada perto de Melides fez do seu pato assado a improvável estrela gastronómica da Costa Azul. É assim o Tia Rosa, desde 1978. No verão, chegam a sair 80 patos do forno todos os dias. “Noutras épocas, baixa para os 30 ou 40”, diz Carlos Salgado, que com o irmão José Carlos está à frente deste restaurante à beira de Melides. “Um criador local convenceu a minha mãe, a Tia Rosa, a experimentar em 1978. As pessoas gostaram e começou a vir muita gente”, recorda Carlos. O sucesso transformou a antiga taberna com mercearia num emblema gastronómico da região. Um restaurante que fez do pato rei em terras de peixe e marisco. O dito vai ao forno a assar com batata, laranja e arroz de cabidela feito com sangue e miudezas, sendo este arroz depois coberto de ovo antes de gratinar. Também se servem costeletas de borrego e pratos por encomenda como ensopado de enguia ou massinha de tamboril. O restaurante, com capacidade para 140 pessoas, fecha à segunda ao jantar e à terça todo o dia.
A Taberna dos Cabrões
Onde todos têm a testa enfeitada
De chocalho na mão, Serafim Tavares, 68 anos, sai da cozinha, abeira-se da sala do restaurante e, perante a chegada de novos clientes, toca o chocalho e anuncia: “temos aqui novos cabrões!”. O tratamento não incomoda ninguém. Quem aqui vem sabe ao que vai. “Às vezes chateiam-se quando me esqueço do chocalho!”, conta. A mesma frescura no trato, Serafim aplica na cozinha do seu restaurante. A Taberna dos Cabrões não abre às segundas para garantir o peixe fresco, os fígados são sempre da matança do próprio dia e as batatas fritas são preparadas com óleo trocado diariamente. É cozinha portuguesa sem atalhos, congelados, sem maionese nem ketchup. Em 2020, A Taberna dos Cabrões mudou-se para São Francisco de Alcochete, um pouco ao lado do local original. Com isso ganhou espaço, mas manteve o ambiente familiar que atrai quer operários quer músicos como Quim Barreiros, que até compôs uma canção em sua homenagem. Serafim mantém-se ao lume, provando que uma taberna com nome de brincadeira leva a sério a melhor tradição portuguesa.
Tasca das Fodinhas
Onde o menu é para maiores de 18
Se o nome desta tasca atípica em Ponte de Lima já é, por si só, sugestivo, espere até ver a ementa: “Fodinhas quentes na rachinha”, “Biquinhos de amor”, “Mamadeiras bem quentes”, “Vinagreta húmida” e “Safadões sem consolo” são algumas das especialidades do menu atrevido. Foi Márcia Correia, proprietária, a responsável pela criação original d’O Cardápio da Márcia, e garante que os clientes tiram muitas fotografias. “A maldade está na cabeça de cada um.” A Tasca das Fodinhas abriu em 2001 no centro da vila mais antiga de Portugal, com uma oferta infalível de café, vinhos e petiscos portugueses. O balcão é coberto por telhas e as mesas estão sempre repletas de pataniscas de bacalhau, a maior especialidade – “gasto 180 ovos para fazer a massa” –, chamuças, panados de porco, pica-pau, chouriço assado e outras iguarias. Para acompanhar, nunca faltam malgas de verde tinto, que aqui, nesta tasca de Ponte de Lima, é como quem diz “quecas”, assegura a proprietária. Entre com apetite e mente aberta e prepare-se para ser recebido com a característica hospitalidade minhota.




