Há uma ideia de tradição que vive no passado, em mãos que aprenderam o ofício de outras mais experientes, nas matérias que vêm da terra e nas técnicas repetidas no tempo. Mas a tradição também pode estar viva e em transformação. Talvez seja quando ela deixa de ser repetida à letra que encontra uma nova forma de sobreviver.
Neste momento, somam-se os novos artesãos que olham para o património material e imaterial de Portugal e decidem pôr as mãos na massa, sempre com um olhar curioso e inovador. Recuperam técnicas, mas mudam-lhes a escala. Trabalham matérias ancestrais, mas aplicam-nas a novos objetos. Revisitam histórias antigas, mas acrescentam-lhes personagens e problemas do presente. O resultado é um desvio criativo onde o familiar se renova e transforma. Ainda o reconhecemos, mas não exatamente como o conhecíamos antes.
Assim surgiram os cinco projetos apresentados nas próximas páginas: das fibras vegetais aos têxteis, da cerâmica ao caroço de azeitona que dá forma a mobiliário, sem esquecer as flores em papel que decoram ruas numa tradição que é Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Entre o respeito pelo que veio antes e a liberdade de imaginar o futuro, estes artistas e artesãos mostram que a tradição portuguesa continua a ter espaço para mudar de forma. E talvez seja na mudança que reside precisamente a sua força: porque colocar a tradição em diálogo com o presente é uma forma de a ligar às suas origens e de, em simultâneo, a manter viva.
Célia Esteves
A artista que transforma tapetes em obras de arte
O som ritmado da madeira do tear a bater entre os fios de algodão ecoa neste atelier no Porto, onde vivem tapetes de todas as cores e feitios – expostos e pendurados nas paredes. É aqui que Célia Esteves trabalha novas peças. “Gosto das possibilidades, de poder fazer à mão, de ver a produção da peça a acontecer no tear”, descreve, sem tirar os olhos do material que tem à sua frente. Esta tem sido parte da sua rotina desde que, há 14 anos, criou o GUR, um projeto que transforma desenhos elaborados por designers, artistas e ilustradores em tapetes únicos, feitos em teares tradicionais de madeira e com tecido de algodão, num exemplo que junta técnicas tradicionais e peças contemporâneas.
Célia nasceu em Viana do Castelo, rodeada de tradições feitas à mão, como bordados e trajes típicos, mas também com a presença de um tear que tinha em casa da família. “Essa influência marcou-me”, recorda. Licenciou-se em Design de Comunicação, tirou o mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão e chegou a trabalhar nas oficinas técnicas da Universidade de Belas Artes do Porto. Até que um dia o amor à tradição e ao saber fazer voltou à tona, quando conheceu a tecedeira Cláudia Vilas Boas numa exposição em Viana que juntava artesãos locais e jovens artistas. “Passados tantos anos, houve um reencontro com este saber fazer e foi durante esse projeto que fiquei encantada com o tear e quis aprender mais. Fiquei tão contente com o resultado que quis continuar a desenvolver alguma coisa relacionada com isto”, refere a designer de 44 anos.
Em 2012, depois de vários contactos com artistas, nasceu o GUR, numa brincadeira com a palavra rug (tapete) ao contrário, para demonstrar que também este produto pode ter novas roupagens. A marca desenvolve tapetes criativos e diferentes, feitos à mão por tecedeiras em Viana, Barcelos e no Porto e, mais recentemente, também por Célia, que aprendeu a dominar o tear e deixou de estar apenas na gestão de todo o processo e do contacto com os artistas, passando a produzir pequenas peças na loja onde, ao mesmo tempo, recebe os clientes.
O processo de fazer cada tapete à mão demora cerca de quatro semanas, uma vez que é feito manualmente, e envolve um trabalho direto com os artistas. Célia orgulha-se em manter o modelo inicial com que criou esta marca e ver os GUR espalhados por todo o lado, desde hotéis e lojas a clientes particulares que decidem comprar um tapete único para terem em casa. Sem nunca perder a sua grande vertente: cada um é feito à mão e nunca é igual ao seguinte.
Carlos Manuel Gonçalves
Ceramista de figuras, memórias e ditados populares
O ateliê de cerâmica na Ajuda, Lisboa, nunca esteve nos planos de Carlos Manuel Gonçalves que, até há seis anos, trabalhava em áreas como publicidade, turismo e produção de teatro. Foi durante a pandemia que começou a criar mais e mais objetos com as mãos e decidiu dar uma hipótese ao hobby que tanto o entusiasmava. “Foi uma decisão daquelas que têm de se tomar uma vez na vida. Precisava de arriscar e tentar a minha sorte“, recorda. Não podia ter corrido melhor.
Com uma linguagem própria e facilmente identificável – em que as memórias alentejanas e os dizeres tradicionais ganham destaque em figuras de cerâmica, cheias de caráter e humor – as peças de Carlos receberam reconhecimento rapidamente. “O meu trabalho conta as minhas histórias. Tenho peças com nomes de familiares, de animais que tive… Têm muito do meu imaginário e da minha vivência, daquilo que sou enquanto pessoa.”
Essa origem está longe de Lisboa. Carlos nasceu numa aldeia pequena no distrito de Beja, num Alentejo profundo, sem grandes distrações para além da sua própria imaginação. Décadas depois, Gonçalves reconhece que esse vazio aparente foi terreno fértil para a criatividade: o “lado popular”, os pratos kitsch da casa da avó, as expressões idiomáticas, tudo isso ficou guardado e hoje reaparece. “Para mim, foi muito fácil encontrar a minha identidade na cerâmica. Simplesmente pus fora o que já cá estava dentro. O meu trabalho é isto – e isto sou eu.”
Na cerâmica portuguesa associada ao figurado tradicional, Carlos é uma pedra no charco. A desconstrução que faz contribui para uma maior pluralidade e relaciona-se com o público atual. “As pessoas dizem que o meu trabalho as remete para qualquer coisa que já viram em algum lado. Fazem comparações, dizem que parece Rosa Ramalho ou figurado de Barcelos. Há uma necessidade humana de comparar, e eu percebo isso.” O que há nestas peças de tipicamente português e que salta à vista, dá depois uma volta de 180 graus, mantendo-se apenas uma sensação de familiaridade. “O que eu sei é que o meu trabalho é uma extensão de quem eu sou, e as pessoas sentem qualquer coisa quando o vêem.”
Sempre leves e com sentido de humor, muitas das peças têm nomes inspirados em dizeres populares como “Cor de burro quando foge”, “Pescadinha de rabo na boca”, “Badalo Pinheiro” ou “Bicho Carpinteiro”. São títulos que fazem sorrir e, ao mesmo tempo, revelam o mundo onde o artista cresceu. Esse humor é a marca de água da sua obra. Carlos mantém um lado assumidamente infantil e irreverente: faz pratos com frases como “Não há cu”, jarros cheios de “Noção” e figuras que brincam com tabus. “Enquanto incomodar algumas pessoas, vou continuar”, brinca. Mas há muita gente que se diverte em vez de se ofender. “É muito gratificante fazer uma coisa tão pessoal e não ter de estar sempre a explicar o que é. As pessoas olham para o meu trabalho e gostam ou não gostam, mas eu já não preciso de justificar ou dizer para que serve.” Para bom entendedor…
Sofia de Francesco
A designer que se inspira na tradição
Foi rodeada pelas pinturas e esculturas dos seus avós que Sofia de Francesco cresceu e continua a desenvolver a sua arte. No estúdio da família, onde a designer trabalha atualmente, saltam à vista as mesas com tintas, diversos produtos colocados nas estantes, caixas cheias de materiais e esculturas espalhadas pela sala. “Tudo isto acaba por ser a minha fonte de inspiração”, refere a artista de 30 anos, natural do Porto. É aqui que Sofia se inspira, idealiza e desenvolve as suas peças, onde o desenho contemporâneo dialoga com a herança tradicional portuguesa, numa procura constante por novas técnicas e materiais.
As diversas experiências artísticas familiares levaram, quase naturalmente, a que o seu percurso passasse pela vertente artística, com formação em Design de Produto e uma experiência como desenhadora técnica numa empresa. Sofia começou a sonhar mais alto e a desejar ir além do simples papel de designer: “Não queria fazer apenas parte do conceito e da idealização do produto. Queria também pôr as mãos na massa”. De forma autónoma, começou a desenvolver as suas peças e a manter o contacto com artesãos e a indústria local, utilizando materiais como madeira, papel, cerâmica e argila, têxteis e fibras naturais.
A funcionalidade e a estética, mas também o propósito de cada peça e a sustentabilidade são valores que Sofia aplica nos seus trabalhos, que faz para empresas, marcas e também para apresentar em diversas feiras. Em 2024, a designer concorreu à Lisboa Design Week e desenvolveu aquele que é atualmente um dos focos do seu trabalho, um produto que permitisse fazer a ligação entre o designer, a indústria e o artesão: “Através do banco B1, produzido não só para ser um móvel funcional, mas também com o objetivo de preencher a lacuna entre o artesanato secular e as técnicas de fabrico contemporâneas”. O reaproveitamento de materiais está também muito presente no seu trabalho e exemplo disso é uma técnica que desenvolveu – a paper derm – em que transforma o papel reciclado de caixas de ovos em peças como candeeiros e biombos.
Já a inspiração, refere, parte muito dos processos de fabrico tradicionais, mas sempre com a liberdade para experimentar e criar objetos que reinventam técnicas mais antigas. “O contato direto que tenho com os artesãos, entre marceneiros a carpinteiros, também me ajuda a perdurar um pouco mais todo este legado tradicional. Acho que há uma nova onda muito importante e de alguma revitalização destas tradições”, refere.
Milena Kalte
As fibras errantes da serra de Sintra
Uma cabana de madeira, sem água nem eletricidade, rodeada de verde e silêncio. Assim é o ateliê de Milena Kalte – rústico, quase primitivo, mas também místico – a condizer com o seu trabalho, que utiliza plantas locais para reinventar antigas histórias orais. Temos, então, uma cabana que é ateliê, uma alemã de alma sintrense e a artesania no lugar da antropologia.
A história de Milena Kalte, 34 anos, está longe de ser linear. Aos 20 anos, veio para Coimbra estudar antropologia, depois culturas visuais e digitais, com foco em relações entre humanos e animais – que seria determinante para o seu trabalho com fibras naturais.
Cruzou-se com o ofício já adulta, quando viu um anúncio de formação nas técnicas de esparto em Alte, Loulé. Sem experiência, inscreveu-se no curso que ensinava tudo – da apanha às tranças – sobre o esparto que cresce de forma selvagem nas serras algarvias, a Stipa tenacissima.
A ligação entre humanos e animais foi a sua primeira inspiração. Milena criou o que parecem ser cabeças de animais, mas que são antes figuras do imaginário rural, como a Zorra Berradeira, um ser antropomórfico que aparece em lendas de norte a sul de Portugal, ora como cabra maléfica, ora como ave gigantesca. “Aquela figura permitia às pessoas explorarem medos, inseguranças e a relação entre humano e não humano de forma mais livre”, explica. As histórias orais funcionavam como uma forma de transmitir conhecimentos da terra – plantas venenosas ou úteis, animais, perigos do caminho, regras sociais – e também como um exorcismo de emoções más ou complexas.
A viver em Sintra, a alemã visitava o Algarve frequentemente para apanhar esparto e tirar dúvidas com os mestres. Mas a viagem era longa e começou a levantar questões: se esta arte tinha nascido de uma relação íntima com a terra, que sentido fazia ir buscar matéria-prima a outro lado? Essa inquietação levou-a a procurar plantas em Sintra que pudessem ser trabalhadas.
“Testei como se comportavam quando eram colhidas, depois secas e molhadas, e procurei variações de flexibilidade, resistência e textura.” Fez experiências com o bracejo, junco, espadana e até silvas e urtigas. Entre as várias plantas que descobriu, uma das mais importantes foi o Linho da Nova Zelândia, espécie introduzida há décadas em Sintra, usada por agricultores para atar molhos de hortaliças, flores e vinhas, graças à resistência das suas fibras. A artesã percebeu que tinha muitas semelhanças ao esparto – com a vantagem de estar disponível ali mesmo, na serra.
Na sua cabana na floresta, a alemã aprofundou a relação das máscaras com o imaginário popular e a Zorra Berradeira foi novamente reinterpretada. “Muitas das histórias foram fixadas em texto e perderam a capacidade de se atualizarem. Por isso, fazia sentido criar uma nova criatura, desta vez enraizada em Sintra: a Zorra Atadeira.” Esta personagem nasce do Linho da Nova Zelândia, colhido ali mesmo, e tem como propósito participar, de forma simbólica e performativa, na luta contra a desflorestação e a pressão imobiliária sobre o Parque Natural da Serra de Sintra, numa prática que junta antropologia, artesanato e ecologia.
Joana Astolfi e doPovo
Flores de Papel de Campo Maior para o mundo
Na Graça, há uma porta que separa o rebuliço de Lisboa de um mundo mais lento, colorido e manual. É a Oficina Astolfi, um dos espaços que compõem o universo criativo de Joana Astolfi, que funciona como laboratório, arquivo e sala de estar criativa. Por aqui passaram flores de Campo Maior, antes de viajarem para o mundo – mas a história que as fez chegar aqui começou muito antes..
No final das últimas Festas do Povo de Campo Maior, em 2015, Rita Nabeiro questionou se seria possível manter as flores em papel presentes sem ser no contexto das festas, já que fora da época era impossível comprá-las na vila.
A vontade de criar um projeto que desse continuidade a este saber ficou durante anos “adormecida, apesar de muito acarinhada”, recorda Rita Nabeiro. O desafio seria sobretudo criar pontes entre as mãos que dominam a técnica e os criativos capazes de a levar a contextos diferentes.
Dessa ambição nasceu, em 2025 – antes ainda do anúncio da edição de 2026 – uma marca de expressão artística e valor acrescentado, enraizada em Campo Maior e orientada para o futuro, criada por Rita Nabeiro: a doPovo. “Gosto muito deste nome porque evoca a raiz, o sentimento, o lado popular, mas também a contemporaneidade e a renovação da tradição.”
A doPovo procura transformar as flores de papel numa arte viva e aberta. Trabalha em articulação com o Tempo Para Dar, iniciativa de solidariedade social da Associação Coração Delta, que reúne mulheres idosas, guardiãs deste saber manual. A marca medeia a produção artesanal e as necessidades de artistas, designers e clientes, assegurando que a tradição responde a novos desafios sem perder identidade. “Artesania ancestral e design intemporal”, conclui a fundadora. As receitas revertem integralmente para o Coração Delta.
Foi neste contexto que surgiu o primeiro projeto da doPovo, uma feliz aproximação entre design contemporâneo e tradição popular portuguesa. Ainda antes de haver uma encomenda concreta, Rita Nabeiro partilhou a ideia com Joana Astolfi, que se entusiasmou com as possibilidades que abria. “A ideia ficou a marinar”, recorda a arquiteta, designer e artista. Pouco tempo depois, surgia o convite da L’Objet, marca internacional de decoração de interiores de luxo, para a campanha de uma nova coleção. Tratava-se de um serviço de mesa com padrões florais. “Foi match total”, diz.
A equipa da Oficina Astolfi foi a Campo Maior trabalhar com as artesãs do Tempo Para Dar, que “têm o saber fazer”, como explica a artista. Em vez de copiar modelos existentes, o objetivo foi compreender a técnica e expandir as suas possibilidades: abrir pétalas, aumentar escalas, experimentar cores e alterar proporções.
Por três meses, Campo Maior e Lisboa mantiveram um diálogo próximo. Mais de uma dezena de mulheres produziu flores à mão, uma a uma, segundo as indicações da Oficina Astolfi. Em Lisboa, as flores integraram uma mise-en-scène com estruturas de ferro tubular pintado, bases de pedra, frutas e insetos em gesso, também pintados à mão.
O resultado foi eternizado numa sessão fotográfica e, mais tarde, as peças viajaram até às montras da L’Objet em Paris, Londres e Nova Iorque. Das Festas do Povo de Campo Maior para as capitais internacionais do design, esta foi a primeira viagem da doPovo – e uma demonstração concreta do que a marca ambiciona daqui em diante.




