Dão, Douro, Alentejo e Lisboa. A colheita é de 2020, ano do centenário da fadista, e as receitas revertem para a sua Fundação.

 

Rita Nabeiro. Adega Mayor

 

“Um vinho feito por sete produtoras, de quatro regiões, para honrar Amália e com um cariz solidário? Isto não se torna a repetir”, diz a produtora Rita Pinto (da Quinta do Pinto), uma das mulheres a quem Rita Nabeiro estendeu o desafio que lhe fora proposto pela Fundação Amália Rodrigues: criar um vinho evocativo do centenário da fadista. Também Catarina Vieira (Herdade do Rocim), Francisca Van Zeller (Van Zellers & Co), Luísa Amorim (Quinta Nova), Mafalda Guedes (Sogrape) e Maria Manuel Maia (Poças) aceitaram o convite.

O grupo já se conhecia de outros projetos. Foi o crítico de vinhos Fernando Melo quem as juntou pela primeira vez, em 2012, num artigo do Diário de Notícias intitulado “As herdeiras do vinho”. A amizade perdura até hoje. E amigos não fazem cerimónia. “Foi um telefonema”, recorda Luísa Amorim sobre o convite. “A Rita é uma pessoa muito aberta, muito cordial. Respondi logo que sim. Porque nestes projetos não se pensa duas vezes. É sim por todos os motivos e mais alguns.”

“Estas coisas só acontecem quando alguém pensa além do momento e não tem receio de partilhar o brilho, o que não é fácil”, conta Catarina Vieira em relação à administradora do Grupo Nabeiro, que, tendo recebido o convite para criar um vinho Adega Mayor comemorativo do centenário, achou que não poderia ser de uma só região. “Ela era tanta coisa, que fazia sentido para a Rita que o vinho fosse feito por várias produtoras de diferentes regiões.”

Cada produtora contribuiu em duas dimensões. Contribuiu com vinho, entre 450 e 675 litros das suas melhores barricas da colheita de 2020, e com o seu envolvimento pessoal. Houve quem se dedicasse mais à enologia, à comercialização ou à comunicação. 

Das amostras enviadas aos enólogos fizeram-se três lotes, dos quais as sete escolheram o vinho tinto que melhor representasse a diversidade de um tributo unido a Amália. Um vinho que é um blend robusto e indulgente, de grande equilíbrio, intensidade e concentração, com uvas do Dão, Douro, Alentejo e Lisboa, das quais se fizeram apenas 1920 garrafas magnum de 1,5 litros. Custa 180 euros e todas as receitas revertem para a Fundação Amália Rodrigues.

Catarina Vieira. Herdade do Rocim

Só queria um pequeno terreno para praticar viticultura. Em vez disso, recebeu uma herdade que é hoje a âncora de uma empresa que produz vinhos no Alentejo, em Lisboa, no Douro, Dão e Açores.

De certo modo, Catarina Vieira esteve sempre ligada ao vinho e à viticultura, embora não como hoje, na Herdade do Rocim, onde produz um milhão e duzentas mil garrafas ao ano. “Talvez porque os meus avós paternos fossem agricultores, numa terra pequena perto de Leiria, e os avós do lado da minha mãe também estivessem ligados à terra e ao vinho”, sugere.

Que o gosto pela natureza vem de trás, disso não tem dúvidas: “Quando era criança, passeava muito de bicicleta com o meu avô paterno. Íamos visitar as hortas e vinhas.” Na escola ponderou seguir desporto, mas acabaria por se inclinar para a engenharia, no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, onde se entusiasmou pela viticultura. 

O interesse seria aprofundado durante o trabalho final de curso em Itália, que incidia sobre a viticultura e, em particular, sistemas de poda. Quando regressou, Catarina contou ao pai – o empresário José Ribeiro Vieira, fundador do grupo Movicortes – que gostava de ter um pequeno terreno, talvez um hectare, onde pudesse desenvolver os seus estudos em enologia e viticultura.

José Ribeiro Vieira, empresário de visão com ligações à agricultura – os seus pais vendiam uvas, além de o próprio grupo empresarial comercializar equipamento agrícola –, não fez por menos e adquiriu uma propriedade no Alentejo com mais de cem hectares, a Herdade do Rocim.

Hoje, aos 46 anos, Catarina produz vinhos de terroir que reproduzem ao máximo a qualidade das uvas. “Tentamos fazer vinhos genuínos com muito carácter e intervenção mínima na adega. Uma grande parte da vinha está certificada em modo de produção biológica.”

No Alentejo está o “projeto âncora”, mas Catarina e o marido, o enólogo Pedro Ribeiro, também produzem no Douro, em Lisboa, nos Açores, no Dão e em Leiria (onde foi tirada esta foto). O vinho com que Catarina entrou no projeto Amálias 100, esse só podia vir da Herdade do Rocim e da casta rainha da região, a Alicante bouschet do Alentejo.

Francisca Van Zeller. Van Zellers & Co

Francisca Van Zeller nasceu no mundo dos vinhos e, tanto quanto se lembra, sempre quis fazer parte do negócio da família. “Tinha 10 anos quando disse ao meu pai [Cristiano Van Zeller, um dos pioneiros no vinho do Douro ] que queria ser ‘cozinheira de vinhos’, por causa das vezes sem conta em que o vi a fazer lotes na adega, processo que me lembrava a minha avó a fazer bolos.” 

Por sugestão do pai, não se atirou de cabeça. “Disse-me que era importante perceber de outras coisas.” Francisca foi antes estudar História para Londres, tirou um mestrado em jornalismo em Madrid, viajou, viu o mundo. “Se houve capacidade que fui desenvolvendo ao longo dos anos, foi a comunicação e o gosto. A licenciatura em História deu-me uma visão mais ampla a abordar temas novos e noção da análise que deve ser feita antes de se tirar qualquer conclusão.”

Aprendeu a importância da diversidade de fontes e encontrou reflexo disso no vinho, com as castas, regiões e pessoas que desenvolvem os mais variados projetos. “Acho que essa riqueza e diversidade foi o que sempre me interessou no mundo dos vinhos. Como era o que mais conhecia, foi fácil escorregar de volta.” 

Sempre pelo lado da comunicação e marketing, Francisca passou por empresas como a Bacalhôa e Aveleda antes de ir trabalhar diretamente com o pai na Van Zellers & Co, desde 2021 uma empresa independente, embora a sua origem remonte ao século XVII.

Aos 36 anos, aprecia provar vinhos de outros produtores e experimentar restaurantes. Diz-se muito ligada aos amigos e à família. “A profissão do meu marido [o ator e encenador Albano Jerónimo] também é enriquecedora; por isso, passo algum tempo no teatro, em concertos, livrarias, mas também gosto de estar na natureza.” 

Quando Rita Nabeiro a convidou a participar no vinho Amálias 100, Francisca não hesitou. “É impossível dizer-lhe que não porque tudo o que a Rita propõe, ela já pensou muito bem. Percebe-se que vão ser projetos com impacto muito positivo, como é o caso deste.”

Luísa Amorim. Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

A cortiça foi desde sempre o negócio da família Amorim. Mas quase não há vinho português sem rolha, nem rolha que se preze sem cortiça, de modo que isto anda mesmo tudo ligado. A vontade da família em entrar no mundo do vinho materializou-se em 1999 com a compra da J.W. Burmester, empresa histórica do vinho do Porto que detinha a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, nos socalcos do Douro.

“Sempre se respeitou e gostou muito de vinho do Porto nesta família, mas rapidamente se percebeu que o mercado, em dinâmica, não estava tão aberto como estava ao DOC Douro; por isso, houve uma aposta maior no último”, recorda Luísa Amorim, a mais nova de três irmãs. Essa aposta resultou na venda da J.W. Burmester, em 2005, mas não da Quinta Nova nem dos seus stocks de Vintage. “Decidimos que queríamos ter projetos ligados ao vinho, mas que fossem de alta qualidade.”

Luísa, com um passado ligado ao marketing e turismo, é a responsável pela área de vinhos desde então e ainda hoje participa no fecho de todos os lotes que saem para o mercado. “Era incapaz de fazer um vinho em adega, não é a minha especialidade. Mas sei muito bem desenhar um perfil de vinho na sala de provas. Talvez tenha sido esse o primeiro know how adquirido com o vinho do Porto”, diz. E acrescenta: “Fui autodidata. Tive de fazer um pouco o meu próprio caminho.”

Ao vinho depressa se juntou o enoturismo, com a integração da Quinta Nova na prestigiada rede de hotéis do grupo Relais & Chateaux, e em época alta passam pela quinta entre 100 a 150 visitantes por dia. Além de ser  formada em Direcção Hoteleira, Luísa teve sempre um fascínio por viajar. “Tenho a necessidade de conhecer o mundo.”

Dos projetos vínicos sob a sua alçada, onde cabem ainda a Quinta da Taboadella (Dão) e a Herdade Aldeia de Cima (Alentejo), foi da Quinta Nova que saiu o vinho touriga nacional com que participou no projeto Amálias 100. “É o que tem a imagem mais clássica, como a Amália.”

Mafalda Guedes. Sogrape

Pertence à quarta geração da família que controla a maior empresa portuguesa no setor do vinho, a Sogrape, da qual é diretora de Corporate Brand and Communications and Sustainability. 

Provando que não, que nem todas as regras têm a sua exceção, também Mafalda Guedes nasceu no vinho – se houvesse um só traço comum às sete Amálias, seria virem de famílias com tradição vínica. E soube desde cedo que um dia teria responsabilidades sobre o futuro  da Sogrape, seguindo os passos do pai e do avô. “Não me lembro de alguma vez ter tido vontade de não trabalhar lá, foi sempre algo que desejei muito”, diz, sobre o negócio fundado pelo seu bisavô, em 1942, e que se tornou a maior empresa portuguesa de vinhos, uma multinacional com atividade em cinco continentes.

Nas férias escolares tentava ir com o pai ao trabalho. “Adorava ir para o escritório,” recorda. “Também tive a sorte de acompanhar o meu avô quando visitava as quintas.” Na época, Mafalda chegou até a fazer uma composição em que dizia que, quando fosse grande, queria ser economista para poder sentar-se na cadeira do avô. 

Lá chegaria, ao escritório da Sogrape, mas não pelo caminho mais curto. Só depois de estudar gestão, de passar por uma consultora e de ter trabalhado num banco em Angola é que Mafalda Guedes chegou a casa, em 2010. Hoje é diretora de comunicação corporativa e sustentabilidade e divide–se entre o Porto, onde mora, e Avintes (V.N. Gaia), onde fica o escritório.

Uma paixão recente tem-lhe ocupado os tempos livres: futsal. Criou uma equipa com as outras mães da escola dos filhos. E, como os nomes não jogam à bola, a “Equipa de Mães” – designação oficial – foi já campeã nacional da liga Inatel. Como é evidente, a equipa de futsal tem o patrocínio da Mateus Rosé, talvez a referência mais popular da Sogrape.

Para uma empresa com raízes no Porto e no Douro, e que produz vinho por todo o país e tem ainda vinhas na Argentina, Chile, Espanha e Nova Zelândia, Mafalda surpreendeu na escolha do lote para entrar no projeto Amálias 100: “Como o Douro já estava presente, fomos buscar vinhos do Dão, para que também essa região estivesse representada.”

Maria Manuel Maia. Poças

Maria Manuel Maia, responsável de viticultura da Poças, cresceu a ouvir a voz de Amália Rodrigues entoar pela casa, pois a mãe e a avó tinham quase todos os álbuns. Por isso, pensava que a conhecesse bem, até que um dia, no contexto do projeto Amálias 100, as sete produtoras de vinho foram à Casa-Museu Amália Rodrigues. A visita foi marcante. “Nunca tinha ido e descobri detalhes da vida dela que desconhecia. A minha admiração cresceu ainda mais”, conta. “Só depois da visita ganhei uma noção real do seu impacto na cultura e a projetar Portugal no mundo.”

Maria entrou no Amálias 100 com dois lotes de vinhas velhas: um touriga nacional da Quinta de Vale de Cavalos (Douro Superior) e um field blend da Quinta de Santa Bárbara (Cima Corgo) – ou não fosse a Poças um produtor independente de vinhos do Porto e DOC Douro. É uma empresa familiar, da qual Maria representa a quarta geração (é o nome de famíla do bisavô Manuel Domingues Poças Júnior).

Cresceu em Miramar (V.N. Gaia), foi estudar engenharia agrária para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real, e por lá ficou. Apesar da ligação familiar ao vinho, foi só na faculdade que despertou para os encantos da viticultura. “Fiz Erasmus em Itália, na área de investigação ligada à viticultura. É um campo muito importante e de que gostei muito, mas percebi que não queria seguir investigação. Preferia estar ligada à produção.”

“Não cresci com a expectativa de trabalhar cá”, conta. “É claro que, ao seguir a área de engenharia agrícola, pensei que em algum momento isso pudesse vir a acontecer, mas nunca fui pressionada.” Quando terminou o curso, em 2005, o lugar de responsável de viticultura estava vago, pelo que a família a desafiou a vir para a empresa. Maria hesitou, ponderou bem os prós e contras, e: “Cá estou, até hoje.”

Por estes dias, pertence à administração da Poças e supervisiona a viticultura e enologia. Divide-se entre o escritório e o campo. Sempre em família. 

Rita Pinto. Quinta do Pinto

Não é que houvesse em Rita Pinto um interesse prévio pela viticultura ou pela vinha. Houve foi um crescente desinteresse em continuar a trabalhar no marketing de uma grande multinacional. Foi o que lhe ocupou os dias, durante quase uma década, depois de se formar em Gestão pela Universidade Católica. “Olhei para a minha vida na multinacional e achei que não era o que queria. Não foi automático, não tive uma epifania, foi apenas algo que aconteceu”, conta. 

Quando, em 2003, o pai de Rita comprou uma quinta em Alenquer, que passou a chamar-se Quinta do Pinto, Rita começou descontraidamente a ajudar nas vindimas. Só por si, o vinho não lhe apelava muito. “O clique deu-se a seguir à vindima de 2007, em que participei a sério, de sol a sol.” 

Espantada com o tempo que o vinho pede, Rita sentiu que estava ali o seu futuro.  “Apanhamos um cacho em setembro, que só em dezembro está fermentado, que depois ainda é loteado, vai para a barrica, daí para a garrafa e só daí a 5 ou 6 anos vai ser consumido. Isso mexeu comigo.”

Apaixonou-se pela vinha e viticultura. E se ia fazer do vinho vida, então pensou que valeria a pena perceber um pouco mais do que se passava no campo. “Na altura, frequentei o antigo mestrado em viticultura e enologia do Instituto Superior de Agronomia. Digo frequentei, porque não entreguei a tese”, justifica a gestora tornada viticultora. “O objetivo não era ser enóloga, mas compreender os processos.”

Quando tem tempo livre, Rita procura a água: gosta de ir à praia e vive a curta distância de um passeio à beira-rio, em Alcântara. Os quatro filhos, de 18, 16 e 14 anos (gémeas), já sabem o que significa para a mãe participar no projeto Amálias 100: “É o pináculo da minha portugalidade.”

O desafio para entrar com um lote de vinho da Quinta do Pinto foi aceite no momento, para não variar. “A Rita [Nabeiro] diz que ficou contente porque dissemos todas que sim automaticamente. Claro. Como é que íamos dizer que não?”