“Os grous fazem parte da nossa vida desde sempre.” Quando era miúdo, Carlos Pepê gostava de passear pelo campo com os amigos. Andavam de bicicleta, exploravam caminhos, observavam os animais. “Na altura do inverno, havia os grous.” Habituou-se a ver os bandos nos céus de Campo Maior, a típica formação em “v”, as aves alinhadas com as suas patas longas e pescoços compridos. “O grou é uma ave migratória, muito resistente, consegue voar imensos quilómetros. Há várias rotas, bem definidas. Estes vêm do Norte da Europa e passam a invernada na Península Ibérica”, explica. Começam a chegar em meados de novembro, quando a comida começa a escassear nos países mais frios, e ficam por aqui, como que a passar umas férias, até fevereiro. Na zona de Campo Maior, chegam a estar, no final da migração, seis mil grous – alimentam-se de sementes e bolotas de azinheira, por isso é normal procurarem as zonas de montado. 

Não sabe se foi por causa dos grous, mas o interesse pelo ambiente e pela natureza foi crescendo. Completados os estudos, o agora professor Carlos Pepê regressou a Campo Maior em 1998 e fundou, com um grupo de amigos, todos interessados pelos temas da biodiversidade e da ecologia, o Geda – Grupo Ecologista e de Desportos de Aventura. “Todos queríamos fixar-nos aqui e queríamos aproveitar esta oportunidade, de estarmos perto da natureza, para fazer alguma coisa”, conta. O grupo desenvolve atividades mais ligadas ao desporto, como caminhadas, mas tem também um lado de ativismo, na luta pela qualidade do ambiente e pela convivência harmoniosa e saudável entre o Homem e a natureza. 

Além disso, no Centro Educativo Alice Nabeiro, onde dá aulas desde 2007, Carlos Pepê é o professor responsável pela oficina das ciências, motivador do projeto “Ciência Viva” e coordenador do programa Eco-Escolas. Não admira, por isso, que tenha passado o “bichinho” da ecologia também ao seu filho, Rafael, que tem agora 17 anos. E, na verdade, foi por causa de Rafael que os grous voltaram a entrar na sua vida.

 

“Incentivamos os nossos alunos a criarem um projeto de empreendedorismo. E o Rafael escolheu investigar as rotas migratórias dos grous: queria ir até à Suécia para ver o país de origem dos grous e perceber como é o modo de vida deles lá e as diferenças em relação ao que acontece em Campo Maior.” O projeto “Instinto Natural” acabou por ser selecionado pela rtp para representar Portugal no programa da Eurovisão “Eu consigo fazer”. Além da vontade pessoal de ir à Suécia, para saber mais sobre os grous, Rafael queria “sensibilizar outras pessoas para a importância desta espécie”, porque os grous são excelentes bioindicadores das alterações climáticas, e “identificar oportunidades de desenvolvimento regional com base no turismo ornitológico”.

Rafael tinha 11 anos na altura e entregou-se por completo a este projeto. Para concretizar o seu objetivo tinha de angariar 1500 euros. Durante o ano letivo, organizou atividades com os seus colegas do Centro Educativo Alice Nabeiro, pediu ajuda a empresas locais, como a Delta, orientou caminhadas de observação de grous, deu workshops de origami a grupos de idosos a quem ensinava a fazer grous de papel.

É que, no Japão, o grou é considerado um “tesouro nacional”. Os japoneses acreditam que o grou é uma ave sagrada, que simboliza paz e vida longa. Também simboliza o amor conjugal e a fidelidade, porque são aves monogâmicas, ou seja, ao longo da vida os grous só têm um único parceiro. Quem oferecer mil grous em origami terá a felicidade eterna, dizem.

Foi uma enorme felicidade para o Rafael ter conseguido ir às lagoas de Hornborgasjön, na Suécia, em 2017, ver os grous e falar com alguns dos maiores ornitólogos. Está tudo documentado num programa de televisão, gravado pela rtp, que acompanhou a aventura deste miúdo de Campo Maior apaixonado pelos grous.

Depois, o projeto incluía, no regresso, a divulgação dos resultados, e foi assim que nasceu a exposição “Instinto Natural Grou – Grus Grus” – que fala das aves que seguem o seu instinto natural e, por isso, fazem migrações. A exposição tem sido apresentada em várias escolas e congressos e, entre meados de fevereiro e final de março este ano, esteve também patente na Adega Mayor, que é membro do programa Act4Nature – Empresas pela Biodiversidade, promovido pela Business Council for Sustainable Development (bcsd) Portugal. Isto significa que a Adega Mayor, tal como as outras empresas que fazem parte desta rede, assumiu o compromisso de implementar estratégias de sustentabilidade dentro das suas áreas de negócio, no sentido de proteger, promover e restaurar a biodiversidade na sua região.

 

Cinco factos sobre o grou

1. É uma ave migratória. No inverno, chegam a estar seis mil grous na zona de Campo Maior.
2. Os chamamentos sonoros e gorgolejantes podem ser ouvidos a grandes distâncias.
3. Os bandos voam na típica formação em “v”, as aves alinhadas com as suas patas longas e pescoços compridos. O voo é algo lento, com o pescoço esticado e com batimentos de asa rígidos, mas rápidos no movimento ascendente da asa.
4. O grou alimenta-se de sementes e bolotas de azinheira, por isso é normal procurar zonas de montado.
5. Gosta de passar a noite em zonas húmidas, charcas, com as patas dentro de água, e só se desloca para os montados ao nascer do sol.

O fotógrafo paciente

No dia da inauguração, os alunos do Centro Educativo Alice Nabeiro visitaram a exposição e realizaram algumas atividades relacionadas com a biodiversidade da região de Campo Maior. Entre os painéis com várias informações sobre os grous, a atenção dos jovens focou-se sobretudo nas fotografias de Ricardo Lourenço, fotógrafo que desde 2005 se dedica a captar as melhores imagens da vida selvagem, sendo colaborador habitual da National Geographic. Ricardo “apanhou” os grous na zona de Campo Maior, Ouguela, Mourão, Barrancos, mas também do outro lado da fronteira, em Espanha: “É uma ave muito elegante e muito bonita. E quando se juntam todos, é um espetáculo giro: podem ser milhares, todos a cantar, fazem uma barulheira desgraçada.”

Para fotografar os grous é preciso ter alguma paciência. “Temos de perceber onde é que eles gostam de andar. É preciso passar algum tempo só a observá-los, com os binóculos, para escolhermos o local ideal para montar um abrigo”, conta. O abrigo é uma tenda camuflada que Ricardo instalava no local onde os grous passam os seus dias para se alimentar. Durante alguns dias, o fotógrafo ia lá só para observar e para os pássaros se habituarem à sua presença. “Isto tudo antes de começar a fotografar!” 

Os grous gostam de passar a noite em zonas húmidas, charcas, com as patas dentro de água, e só se deslocam para os montados ao nascer do sol. Por isso, Ricardo ia para o abrigo mais ou menos uma hora antes da alvorada, para preparar tudo. “Não podia era correr o risco de chegar depois deles, para não os assustar.” Bem instalado, quase sem se mexer, às vezes com um pouco de frio, uma vez que estávamos no pico do inverno, Ricardo Lourenço fotografava as aves com uma teleobjetiva fixa de 600 milímetros: “Mais do que grande alcance, é necessário ter uma objetiva que garanta muita qualidade com pouca luz.” As melhores fotografias dos grous foram tiradas logo cedo, quando o sol ainda se espreguiçava sobre a planície. Ao final do dia, os grous voltavam para os seus “dormitórios”. Lá iam, em bandos de 70, 80 ou mesmo 100 pássaros, fazendo o seu “grou grou”.

 

O projeto “Instinto Natural”, de Rafael Pepê, mudou a vida de muitas pessoas. Foi a partir daqui que, por causa de todo o entusiasmo em volta destas aves, se começou a realizar em Campo Maior, em janeiro, o “Festival do Grou”, que junta a observação de pássaros, o desporto, a gastronomia e, como Rafael previu no seu projeto, também o turismo e o desenvolvimento regional. “O festival já teve cinco edições, tem vindo a crescer e já é um ponto de referência da ornitologia. E foi tudo culpa do Rafael”, conta o pai, com visível orgulho.

Mas também mudou a vida do Rafael. Na viagem de regresso da Suécia, o comandante do avião, sabendo que ele viajava acompanhado por uma equipa da rtp, convidou-o a ir ao cockpit. Foi nesse dia que, fascinado, Rafael decidiu que queria ser piloto de aviões. É para isso que está a trabalhar neste momento. E, conhecendo a sua determinação, sabemos que em breve andará nos ares. Como os grous.